segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

No rasto da vida

Há um rasto de gente
Há um rasto de sombra
Nas pegadas da vida.

Há um rasto de vida
Há um rasto de morte
Nas pegadas do tempo.

Há um rasto de sorte
Há um rasto de vento
Nas pegadas das estórias.

Há pegadas de gente
De vida e de morte
De azar e de sorte
No rasto da vida.

Martha Mendes
(Macau, 29 Dezembro 2008)

sábado, 27 de dezembro de 2008

Pequenos lares nas ruas da cidade

Todas as cidades têm pequenos lares espalhados pelas ruas: os cafés. São territórios de ninguém que acabam por ser nossos, à medida que se torna um hábito frequentá-los. As pessoas começam a chamar-nos pelo nome e a trazer o copo de água que bebemos sempre com o café, mesmo sem o termos pedido. Retiram o cinzeiro da mesa quando nos sentamos porque sabem que não fumamos e que odiamos tabaco. Não sabem que o odiamos porque ele nos roubou o pulmão do homem que mais amamos no mundo, mas pressentem que é um ódio para a vida e apressam-se a retirá-lo da mesa assim que nos vêem entrar. Nos cafés estudamos, marcamos encontros, revemos pessoas a quem o tempo e a vida nos fez perder o rasto. Contamos e ouvimos segredos, conversamos, vivemos momentos que nos ficam gravados na memória. Outro dia ouvi alguém dizer “quando percebi que o 11 de Setembro estava a acontecer estava no meu café”. No “meu café”. Alguns são mesmo lugares históricos, que serviram de palco ao início de grandes paixões, ao germinar de revoluções na cabeça e no coração dos que haviam de comandar as tropas, lugares de inspiração para artes e literatura. Para quem está fora de Portugal, encontrar um desses lugares, parecido com o “lá da rua”, é muitas vezes um regresso ao caminho. Eu encontrei um. É um pequeno lar português, numa viela do centro da cidade. O seu nome significa “Macau” em chinês. Lá dentro, a voz de Mariza arranca do sangue luso “Oh Gente da Minha Terra”, enquanto pessoas de traços orientais olham para a ementa e apontam o que querem. Alguns arriscam-se por essa língua desconhecida. “Um pastel de nada, uma torrada, uma bica”, dizem num português marcado pelo sotaque da terra do dragão. Outros, naquela que é a língua mãe, conversam sobre o Portugal distante. Ainda que de forma diferente, todos estão em casa neste pequeno lar da família da cidade.

Martha Mendes
(27 Dezembro 2008)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Lágrima

Senti-a descer pelo rosto,
como uma pedra que rola pela montanha.
Pesada, percorreu a curva do nariz,
deu verniz ao olhar baço.
Molhada, fez húmidas as pestanas escuras.
Senti-a descer pelo rosto,
desenho de linhas duras.
Era um lágrima.

Provei-a.

Era uma lágrima, era sal, era mosto.
Água enlameada de solidão.
Sangue transparente, ao mundo exposto.
Água bombeada do meu coração,
esta lágrima do lago da tua ausência.

Martha Mendes
(Macau, 21 Dezembro 2008)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

No mar do nosso corpo

Navego contigo
no mar do nosso corpo.
Na tua pele investigo
restos do nosso sal.

Seguimos a rota dos ventos.
Mar adentro naufragados,
cruzamos o mar alto.
Lentos, descemos os nós
com que percorremos as milhas do desejo.
Perdida no nosso navio,
sou náufraga sem colete
no assobio da tua voz.

Caravela apaixonada
navego em ti.
A barlavento ou a sotavento
vamos entregues ao coração.
Velejadores em mar alto,
eu sou vela, tu és vento,
na rota desta paixão.

Martha Mendes
(Macau, 19 Dezembro 2008)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sentido desavindo

Perdes o cheiro e o receio do mundo toma conta de ti.
Perdes o toque e vais a reboque de sentimentos que não são teus.
Perdes a audição e deixas de ouvir o som do teu próprio coração.
Deixas de ver e passas a ler nos outros aquilo que devias ser tu.
Não provas mais nada, para o sabor das pessoas não te voltar a enganar.

O que é de ti, neste sentido desavindo de não ter sentidos que cheguem para viver?

Martha Mendes
(Macau, 14 Dezembro 2008)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Onda

Há uma onda no mar
que insiste em passar-me por cima.
Como uma gioconda
que me aperta o pescoço
em plena selva.
Vulva que me suga
para um qualquer
buraco negro.
Arrastão que me leva o corpo,
que desintegro
enrolada nesta onda.
Onça que me rói cada osso,
felino que me prende
mas eu emposso.
Esta onda do mar
que me enrola até à terra,
é um escorpião que me ferra
até queimar de veneno.
Esta onda salgada
onde ando enrolada
arrasta-me no seu turbilhão.
É gioconda, onça e escorpião
e, no entanto, é um abraço de vida.

Martha Mendes
(Macau, 5 Dezembro 2008)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O cabelo de seda do miúdo da janela

O cheiro a agri-doce que nunca deixa as ruas. Os rostos amarelos de olhos rasgados. Milhares deles. Milhões. O miúdo que todas as tardes fica parado à janela até lhe atirarmos um beijo. A menina que traz sandes ao jornal e me trata sempre por "a rapariga bonita" na língua dela que eu não percebo e o Vítor só traduz quando ela já vai a descer a rua e eu já não vou a tempo de lhe sorrir. A Joan a dizer "bacalhau" e a tentar ensinar-me chinês. A caixa cheia de e-mails dos que estando longe nunca saem de mim. O rosto novo daqueles que chegaram agora e já estão para ficar. O cheiro a jornal, sempre. As letras impressas. A tinta a tingir os dedos, as estórias a alimentar o papel. A vida a acontecer. Outra vez, até o miúdo bater novamente no vidro a pedir que lhe atire um beijo. Qualquer dia vou lá fora e dou-lhe mesmo um beijo. Pego-o ao colo e faço-lhe uma festa no cabelo preto para descobrir se tem toque de seda tanto quanto parece.

Martha Mendes
(Macau, 28 Novembro 2008)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Beijo na alma

Quero um beijo na alma
e outro na palma da mão.
Quero um abraço para sempre.
E ser o regaço do teu coração.

Quero um beijo na alma.
E essa voz que me acalma
para sempre no ouvido.
Peço um beijo do teu corpo
no meu dissolvido.
Quero esse beijo terno
com que mato a carência de ti.
Peço os teus lábios,
ciência exacta da minha paixão.
Quero um beijo na alma.
E outro na palma do coração.

Martha Mendes
(Macau, 16 Novembro 2008)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Horas certas

Batem as horas certas
no momento errado.
Janelas abertas
em dias de chuva.
Tacada ao lado
na bola rival.
Senhora de luvas
em pleno verão.
Bala perdida 
ou tiro no pé.
Filha menina
ou filho varão.
Dia de sorte
que corre mal.
Desejo de vida
na recta final.
O fraco e o forte
na mesma cidade.
Batem as horas
mas falta um segundo.
Depois de afogado
já não vais ao fundo.
Qual é a verdade?
Acabado de chegar
partir outra vez.
Inimigos de dia
de noite amantes
Manuel e Maria
personagens em palco.
Acertam o passo no último acto.
Batem as horas no minuto exacto.

Martha Mendes
(Macau, 5 Novembro 2008)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Ventos de Mudança

Sopram ventos de mudança,
ao fim do novo dia.
Ventos do Norte
anunciam sorte ou azar.
O relógio não adia mais.
Alimentos de esperança,
criança cheia de vida,
aliança no dedo de um apaixonado.
Dou novos passos,
para recuperar a confianca.
Sem medo dos excessos,
inconfessos pecados de todos nós,
dou novos passos.
Sopram ventos de mudança,
num prenúncio de vida nova.

Martha Mendes
(Macau, 3 Novembro 2008)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Janelas

As janelas da minha rua
abrem para o amanhecer.
Uma luz quente e crua
ilumina o novo dia.
A gente caminha numa dança que assobia,
num compasso que flutua,
como a vida, vista desta janela.
Sinto, para além da moldura fria,
a brisa quente balouçar os tecidos sobre a pele.
O tempo desliza sobre o tempo
e sobre as vidas.
Umas semeia, outras desenraíza.
Olho o mundo através do vidro.
Sinto com os olhos
dores que não são minhas.
Vejo as cores embaciadas pela janela.
Toco, sem sentir, outras peles
e nenhuma pele é igual à dela.

Martha Mendes
(Macau, 21 Outubro 2008)

sábado, 18 de outubro de 2008

Presas da vontade

Palavras soltas
em poesia, em prosa,
saem de mim quando não voltas.
São gritos. São hinos.
Não são nada
senão espinhos da mesma rosa.
Loucuras a que dou forma de letras.
Formas desenhadas,
linhas pretas,
com que descrevo as torturas do desencontro.
De encontro ao papel,
procuro-te.
Curo-te, doença em mim, com as palavras.
Licença para me mostrar nua.
Pele, alma, coração, cabeça
são escravas sem liberdade.
Palavras soltas,
presas da vontade que há em mim.

Martha Mendes
(Macau, 18 Outubro 2008)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Quando nos amamos

Somos trança de indiana,
cesta de verga,
ponto de cruz.
Somos rede de malha apertada,
costura reforçada,
José, Maria e Jesus,
nós os dois, quando nos amamos.

Somos semente a rebentar a terra,
gente a vir ao mundo,
submarino em mar profundo.
Somos prego a rasgar a madeira,
eco que se propaga,
vida verdadeira,
nós os dois, quando nos amamos.

Somos raíz de árvore centenária,
chave que abre o cofre do tesouro.
Somos ouro sobre azul,
folhas do mesmo livro,
livros do mesmo autor,
meu amor, quando nos amamos.

Martha Mendes
(Macau, 15 Outubro 2008)

Retratos antigos

Retratos a sépia, a preto e branco.
Bocados de vida,
recantos de gente.
Manto mil vezes remendado,
estória lida e relida.
Derrota e Vitória,
Glória e Decadência.
Retratos a sépia
preenchem a ausência.
Retratos a preto e branco
Retalho do manto da vida.
Imagem perdida no tempo,
estórias de regresso,
estórias de partida.
O encontro fez-se sempre no mesmo porto.
Cais de homens, amigos, amantes.
Retratos antigos.
A vida parada por instantes.

Martha Mendes
(Macau, 14 Outubro de 2008)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Aguaceiro

O comboio arrancou de vez
em carruagens de saudade e vazio.
Caravanas de distância
levam-te para longe.
A ânsia cresce,
ao som do ferro a raspar os carris.
Choras e ris.
E sorris de mágoa.
A água dos olhos molha o caminho
percorrido légua a légua,
sob o aguaceiro já molhado.
A régua da estória
traçou-nos caminhos cruzados.
Atalhos para um pouco mais de vida.
O último apeadeiro coincide com a chegada.
Recordo cabelos grisalhos de tanto retorno.
Parada negra onde desfila o comboio da partida.
Nós,
Agasalhos um do outro nos dias frios do fim.
Percurso certeiro de uma vida ao acaso.
Descoberta de sol no fim do aguaceiro.

Martha Mendes
(30 Setembro 2008)


sábado, 27 de setembro de 2008

Água em mim

Sangue.
Vermelho e quente, o sangue.
Sangue novo, sangue velho.
com a seiva encarnada comprovo
a verdade abandonada do espelho da carne.
Água.
Fria e verdadeira, a água.
Arruaceira que molha os corpos,
a chuva caída do céu.
Tu e eu.
Sangue e água.
Vida que desagua em mim.
Boomerang que volta sempre.
O sangue vermelho verdadeiro
Do frio e do quente
Água ausente
na seca solitária de abalar.
Sangue teu nas veias minhas
que incendeias quando és água em mim
de tanto me amar.

Martha Mendes
(27 de Agosto 2008)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Partilha

Parto-me ao meio
Separo o melhor de mim
Reparo de ter nascido incompleta.
Pincel sem paleta,
eu sem ti.
Violeta sem raiz na terra,
dou-me.
Partilha que me desterra para fora de mim.
Tu, ilha à deriva no meu corpo,
sem recanto onde atracar.
Mão que me dedilha os segredos
Privilégio de me teres por completo.
Enredos e medos e penedos que não consigo saltar.
Meu amuleto.
Esqueleto de que sou a carne.
Corpo incompleto quando estou fora.
Hora certa para regressar a ti.

Martha Mendes
(22 de Setembro de 2008)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Amor e Raiva

Foi sempre assim, amor e raiva.
Foi sempre assim este conflito.
Amar sem querer e querer sem poder,
Num sentir inquieto e aflito.

Precipício sem fim,
este, onde me perco em ti.
Num salto rasgo o infinito
E do que era eu fica apenas o eco do último grito.

Ferida, arranco tudo o que de teu ficou em mim.
Sangro gota a gota
Até te esvaziar do corpo.
Apago o vestígio da tua pele
Na esperança de deixar de ser tua.
Desfaço o eterno litígio de te amar com cólera.
Rasgada de dor e mágoa
Vejo-me nua sobre a água que reflecte a derradeira verdade:
Foi sempre assim, amor e raiva.

Martha Mendes
(14 de Julho de 2007)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Xeque-mate

De partida para lugar algum
Cheguei onde não quero continuar.
Encurralada no fim da linha.
Acoplada ao fim.
Assassina da vida.
Assassina de mim.
A sangue frio abatida,
sou remetida sem retorno
para o buraco negro do silêncio.
Suborno o som para sentir vida.
Barulho morno da minha voz com cio.
Jogo de xadrez em que sou peão.
Dominós empilhados desmoronam.
É a minha vez.
Pingue-pongue que prolongue a disputa.
Luta marcada pelos limites do ringue.
Avanço uma casa.
Lanço os dados.
De partida para lado algum
chego ao outro lado do tabuleiro.
Taco a taco
Ataco e meto a última bola.
A branca empurra a preta.
É o lance que põe fim à partida.
É o Xeque-mate.
Abate do Rei.
Abate da Vida.

Martha Mendes
(15 Setembro 08)

sábado, 6 de setembro de 2008

O som do que não digo

Vivo calada
Colada à sombra escura.
O silêncio é a minha língua materna
Caserna onde me isolo do mundo.

Vivo calada,
embalada pelos dias que passam longos.
O tempo é a minha balança de medir a vida.
Ácida massa,
medida densa e pesada, a vida.

Vivo calada
Dominada pelo medo de não me encontrar.
O ser é a minha maior ambição.
Desejo desde a primeira entrega.

Vivo calada
Descalça de palavras vãs
Vestida de pensamentos mil
Ardil estéril em que me deixo enlear,
Vivo calada e sem falar
e no silêncio ouço o som do que não digo.

Martha Mendes
(6 Agosto de 2008)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Carolina, A Doce

Carolina:
Que a vida te saiba devolver o sorriso franco que ofereces a todos.
Obrigada por seres uma flor no meu jardim, um capítulo do meu livro preferido, o refrão daquela música. Obrigada por tornares os momentos difíceis menos dolorosos, pelos risos levados até às lágrimas, pelos afectos, pelo colo, pelas cumplicidades, pelo apoio. Obrigada por seres um bocadinho de mim, para sempre.
Por muito que a vida nos apanhe na curva, serás sempre Carolina, A Doce, no livro das minhas lembranças mais queridas.
Faz boa viagem e boa sorte no encontro daquilo que vais procurar.
Levas contigo o pensamento de uma amiga.
Adoro-te e estou por aqui. Para sempre.
Um abraço apertado, daqueles dos nossos, entre risos e lágrimas descontroladas e felizes.
Martha Maria
4 de Setembro de 2008

sábado, 30 de agosto de 2008

(Des)equilíbrio

No limbo do equilíbrio
Ele tenta, ébrio, andar direito.
De dores feitas e rarefeitas
Numa vida amarela,
onde o homem se tenta arrumar.
Rumo a lado algum,
caminha sobre o fio da navalha.
Na aguarela do trajecto
a mortalha espera branca,
sob o caminhar cambaleante.
O homem balança o corpo para manter o equilíbrio.
O fio balança numa ameaça.
Devassa de um momento de risco,
risco num papel o momento.
Cheira a medo e a fim.
E o fim tem um sabor triste
no limbo do equilíbrio.
O público assiste indiferente
à última tentativa.
Altiva réstia de vida.
Sob o fio o homem joga o fim.
O último lençol branco convida.
O fio cede tentado pelo balanço.
Em lanço livre,
o eterno mal-amado cai em desequilíbrio.
O derradeiro grito cai com ele
e sabe a liberdade.
Na aguarela do fim o branco fica vermelho.


Martha Mendes
(30 Agosto de 2008)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Mais perto

Chega mais perto.
Abraça-me. Agarra-me. Adora-me.
Tu que és água, deserto.
Aberto, fechado.
Calado, falador.
Meu amor, meu carrasco.
Chega-te a mim.
Chega mais perto.
Sem trégua nesta entrega ambígua.
Falemos a mesma língua.
Gota a gota entregas palavras preciosas
Que me matam à mingua
Porque me alimentam de ti.
Tu que nunca chegas.
Chega mais perto.
Chega a mim.
Assenti há muito o abate.
Rebate em que me roubas.
Muito perto. Próximo. Colado à pele.
Quase eu também.
Chega mais perto.
Meu bem, meu mal.
Meu sal, pimenta.
Cor cinzenta, cor vermelha.
Abelha, borboleta.
Avião que risca o céu.
Caneta que usas para me desenhar.
Chega-te a mim.
Chega-me mais perto.

Martha Mendes
(29 Agosto 2008)


À minha mãe Maria Regina que nasceu no dia de hoje, há 51 anos, para ser o meu eterno porto de abrigo. A sua infinita capacidade de amar é uma lição de vida todos os dias.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Palavras

Beijas as palavras
Para me mergulhares.
Fazes das palavras
instrumentos com que me lavras fundo.
Na tua boca, as palavras.
Afilamentos das estradas difíceis.
Braços que usas para me abraçar.
Laços com que enfeitas
as conversas que me ofereces.
Eu, guerreira, tentando resistir às tuas preces
de palavras ditas e desditas.
Eu, vencida ao que sussurras.
Palavras afeitas a nós,
afoitas aos outros.
Espaços vazios que preenches com som de ti.
Coches antigos por onde me levas a viajar.
Trevas que transformas em luz,
como nas primeiras horas do Homem.
As tuas palavras,

sons que me amam e consomem.
Abraços de voz que me afogam em ti.

Martha Mendes
(12 Agosto 2008)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Cicatriz

Fenda aberta para sempre
Na seda da pele.
Vereda estreita, azeda,
no mapa do meu corpo.
Marca de uma contenda
Das mil que a vida me deu.
Carimbo sem emenda
Da luta do ontem.
Cacimbo de águas pantanosas.
Cicatriz.
Essa linha que demarca
Dois lados da pele.
Dois lados da alma.
Um momento.
Fenda que o tempo acalma
e a memória acende.
Rio correndo por entre dois bocados de mim.
Cicatriz.
Bissectriz que parte do ângulo das lembranças.
Actriz a actuar sozinha no palco do meu corpo.
Embaixatriz do que já vivi.
Essa linha que demarca dois lados da carne.
Ferida feia que repele.
Encarne da dor que senti.
Para sempre marcada a ferros,

tatuagem alheia em mim.

Martha Mendes
(11 Agosto 2008)

Os outros

Pensava que podia viver sozinha.
Mas depois chegaram os outros.

Pensava que podia não chorar.
Mas depois faltaram-me os outros.

Pensava que os outros não faziam falta.
Mas depois senti saudades.

Pensava que os outros não eram importantes.
Até ao dia em que os outros chegaram.

Martha Mendes

(9 de Julho 2008)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Estilhaços ao fim do novo dia

Rio alto e em bom som.
Rio das hipocrisias,
das almas vazias.
Rio e sei que não é de bom tom.
A minha arma são as gargalhadas.
Granadas contra o poder.
Tiros contra as vidas achincalhadas.


Rio alto e em bom som.

Uso o humor como defesa.
Ataque ao tumor do mundo.
O som do riso
soa-me a estilhaços.
Abraços avessos à paz.
Aguarrás que tudo corrói.
O disparo de balas perdidas.
Baços olhos de carrasco,
capataz do mal,
olham vidas abatidas.

Os cadáveres caem por terra.
O mundo encerra um novo dia.

Martha Mendes

(6 Agosto 2008)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A Vida despiu-se à minha frente

Ontem a vida bateu-me à porta.
Vinha cheia e vazia.
A rir e a chorar.
Vinha quente e fria.
A vida bateu à porta e mostrou-me o cardápio.
Tinha sal e pimenta.
O fim e o princípio.
Doce e azedo.
Tudo o que a condimenta.
Mostrou-me as linhas da mão.
Contou-me todas as estórias
de que o tempo se alimenta.
A vida bateu-me à porta.
Vinha feliz.
Vinha triste.
Trazia uma força que nada aborta.
Ontem vi a vida.
Despiu-se à minha frente.
Mostrou-me as queimaduras do tempo,
as cicatrizes das dores,
sofridas a fogo lento.
Os rasgos de felicidade.
As pegadas da paixão,
impressas na palma da mão.
A vida contou-me da sua agilidade.
Contou-me a estória da vida dela.
De quantas vezes seduz a adversidade.
Da afinidade que mantém com a morte.
Ontem a vida bateu-me à porta,
calhou-me em sorte,
e mostrou-me que sou parte dela.
Desta favela de caminhos entrecruzados
De gritos abafados, sonhos abalados.
Dos abraços apertados,
que nos enchem por dentro.
Dos tombos da vida

de que saímos levantados.

Martha Mendes

(5 de Agosto 2008)

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Era eu

Caminho por cima das nuvens.
Vejo o céu e o mar.
A Terra fora de escala.
O ar onde levito
Ora embala
Ora encurrala.
Fecho os olhos com força.
Acredito.
Procuro-te na rua onde sei que nunca vens.
Quero encontrar-te onde não estás.
Acredito.
Admito que me iludo.
Escudo para me proteger de não te ter.
Caminho por cima das nuvens,
tomo o céu todo.
Num abraço engulo o mundo.
Digo adeus.
Passo ao lado de um anjo.
Chamo por Deus.
Arranjo a alma,
que trago em desalinho.
Lembro a mulher que um dia temeu
E pôs fim ao caminho.

A mulher era eu.


Martha Mendes
(31 de Julho de 2008)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Número sete

Virei as costas à nossa estória.
Na roda aleatória dos sentimentos
Saiu-me o número sete.
Banquete de mentiras.
Balão de ilusões que o alfinete da verdade fez explodir.
Regresso ao mundo.
Ingresso na vida.
Espero outras estórias.
As que estão por vir.
Saiu-me o número sete,
e já gastei seis vidas.
Tantas mortes adormecidas dentro de mim.
Já tenho o bilhete para me afastar.
Porta aberta para outro começo,
onde adormeço sozinha.
Agora que estou inteira.
Inteira, do direito e do avesso.
Agora que me conheço.
Acesso de excesso por defeito,
o sonho desfeito ao longo do processo,
impresso no livro da nossa estória.
Na roda aleatória dos sentimentos,
jogo insuspeito de sorte e azar,
saiu-me o número sete.
Aceito o desafio.
Lanço os dados uma última vez.
O caminho foi sempre imperfeito.

Martha Mendes
(28 Julho 2008)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A dança

Ouço a música dentro de mim.
O som que me sai da pele,
abafa o barulho à minha volta.
Entulho de vozes que se anulam.
Mergulho no som da minha alma,
e ouço a música dentro de mim.
Sigo a batida,
acometida do desejo de te dançar.
Alinho o passo,
enquanto ouço a música em mim.
Admitida sem candidatura ao compasso da vida,
recuso dançar outra melodia que não a nossa.
Arremetida para uma pista escorregadia,
procuro a música dentro de nós.
Pares indiferentes dançam a valsa que adia a morte.
E eu bailarina marginal, vadia
continuo a embalar o corpo que colo ao teu,
ao som da balada que a minha pele irradia.
Paro num abraço que é só nosso.
Juntos dançamos em uníssono.
Ouço a música dentro de mim.
Ouço a música dentro de nós.
Rodeados de gente dançamos sós.
E a nossa música abafa o barulho à minha volta.
Esse entulho de vozes à solta.

Martha Mendes

(25 de Julho 2008)

A cor eleita

Pinto a vida de branco.
Tranco o preto.
Arranco as cores da paleta,
misturo-as.
Procuro um tom secreto.
Pinto uma tela incompleta,
onde não encontro o tom.
Desenho formas disformes,
conforme o desejo que me guia.
A cor perfeita persegui-a toda a vida.

Hoje a cor eleita sou eu.

Martha Mendes
(25 Julho 2008)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Marcha Compassada

Olho os rostos desfocados.
Traços apagados,
no meio da multidão.
Gente sôfrega que se afoga,
que roga atenção.
Olho os rostos desfocados,
afogados em vida.
Na morte lenta do tempo mal parado,
atentam no tempo que passou.
É o rosto gasto,
do homem que caminha.
Que tenta no passado,
corrigir um futuro que não quer.
É um corpo isolado,
mas igual na multidão que marcha compassada.
Igual.
Uníssona.
Consensual.
A gente que se arrasta, animal.
Leal aos outros, desleal consigo.
Porque se arrasta na marcha compassada,
que não é a sua dança.
É o rosto desfocado
que querendo parar, avança.
É o animal,
que sobrevive igual na multidão.
É a gente,
Que sobrevive à vital contradição.

Martha Mendes
(9 de Julho de 2007)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O que importa quem fala?

O que importa quem fala,
se não percebo a sua língua?

O que importa quem fala,
se não fui ensinado a ouvir?

O que importa quem fala,
se o discurso não chega a todos?

O que importa quem fala,
se as palavras não chegam nunca?

O que importa quem fala,
se só o texto sobrevive ao fim?

Martha Mendes
(Maio de 2008)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

11 de Junho, Dia da Inês

Porque ainda não é meia-noite, ainda vou a tempo de te deixar gravada aqui.

23 anos nasceu uma das pessoas mais importantes da minha vida.
MARIA INÊS. A minha amiga mais antiga, a minha amiga mais amiga. Lado a lado desde sempre. Em tantas descobertas; nas lágrimas, risos e sorrisos, vitórias e derrotas. Contornando tantas curvas apertadas. Nas infinitas cumplicidades e horas bem passadas. Tantos afectos e tantas dúvidas que tu ajudaste a tornar certezas. E uma vida toda para continuarmos a ser uma da outra. Mais 23. Mais 46. Estou por aqui. Sempre.

PARABÉNS Nes! :)
Adoro-te.

sábado, 7 de junho de 2008

À Margem

Sonho com o real
e ponho o mar onde ele não cabe.
Acabo com o mal,
para que o mal não nos desabe.

Retorno à inocência.
Abafo os gritos por clemência.
Bloqueio os tiros e as granadas.
Dou as guerras por acabadas.

Com o mar ao fundo e o vento a ferir a pele,
penso no amanhã.
Ferida do vento e da vida,
idealizo o mundo.
Tentativa vã de me manter crente.

Sentada sobre a paisagem,
em linha com o horizonte,
vejo a vida passar rente mas longe demais.
Desalinho o mundo numa miragem.
Sento os loucos na linha da frente.
Esses sãos e lúcidos anormais.
Os outros vêem-me louca também.
Mas não cesso o ímpeto de inconstância.

Vou mais além.
Permaneço aquém.
E continuo à margem.

Martha Mendes
(Maio de 2008)

Grito

Grito.
Grito alto do alto de mim
e rasgo o som com a minha dor.
Grito.
Berro.
Gemo.
Choro.
E grito,
na revolta primitiva, ancestral.
Grito a raiva sempre contida
liberto a dor mortal
de não aguentar a perda,
a pressão,
o desejo.
De não aguentar ter de escolher entre tantos caminhos.
De não aguentar.
De não aguentar mais.
A expansão. O fim da estrada. A vida acorrentada, amarrada.
Grito,
porque perdido nos acho sozinhos
e sozinho tenho medo.
Grito.
Porque não quero o caminho por onde enveredo.
Quero antes o outro, que não escolhi.
Grito sozinho. Sem ti. Sem mim dentro de mim.
Grito ausente do que sou,
onde estou e não estou.
Grito porque a linguagem não basta
para expulsar a raiva de não querer caminho algum.
Grito.
E sofro, dorido por ser apenas mais um.

Martha Mendes
(Maio de 2008)

Ausente de Mim

A trovoada na rua
rompe o vazio dentro de mim.
O eco vindo do céu escuro
encontra-me nua do que quis ser.

Sozinha, fico à minha procura.
Vasculho todos os recantos,
enquanto me instauro nesta tortura de te ter ausente de mim.

Sozinha, trilho caminhos que não conheço.
Perdida.
Sem mapa.
Tropeço.

Sozinha, procuro por mim.
Sem bússola.
Sem rota.
Sem ti.

Sozinha, procuro-me demente.
Até que ausente do que fui
encontro o fim.

Martha Mendes
(Março de 2008)

sexta-feira, 6 de junho de 2008

"A terra não é pura.
A vida não é fácil.
Os seres humanos não são maus.
Mas também não são bons.
Vivem como podem.
Dia após dia."

O Sonho, de Strindberg
(Em cena no TEUC, a comemorar 70 anos)

PS: Obrigada pela excelente companhia Carolina e Crisóstomo!
"O papel é pequeno para tantos ensinamentos, histórias e cumplicidades nossas; mas a vida bem mais longa."
Como diria a Carolina : "Voçês fazem-me bem!" :)

Em Jogo

Errante, vivo na dualidade do que sou.
Entre o oito e o oitenta.
Entre a espada e a parede.
Entre a parede,
muralha que me fecha em mim mesma.
Entre a espada,
aguçada lâmina onde me firo a cada passo.

Passo.

E passo porque as vitórias me derrotam.
Passo porque não sigo as regras.
Passo porque as regras me preseguem.
A cada passo, uma armadilha.
Os caminhos são corredores de ratoeiras sobre as quais vou saltando.
Sempre indecisa,
hesito entre fugir ou deixar-me apanhar na rede.
Sempre indecisa,
hesito.
Errante, salto entre o oito e o oitenta.
Falho a jogada.
E fico presa.
Entre a espada e a parede.

Martha Mendes
(Abril de 2008)