quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Fechada

Não me procurem nas ruas, becos e praças.
Há muito que me fechei em casa.

Não me procurem em casa, precorrendo os corredores de sala em sala.
Há muito que me fechei no quarto.

Não me procurem no quarto, sentada no parapeito da janela a sentir o vento.
Há muito que me fechei no armário.

Não me procurem no armário, encolhida no escuro.
Há muito que me fechei dentro de mim.

Martha Mendes
(26 Agosto de 2009)

sábado, 22 de agosto de 2009

Ele

Ele não fala. Gesticula, gesticula muito, e levanta os braços em gestos enérgicos que dão maior visibilidade às roupas que o cobrem. Velhas e gastas, como Ele. Caladas e tristes, como Ele. Estende a mão como quem se arrasta. E arrasta-se mesmo até à porta do autocarro que descarrega os turistas que, sem saberem, também se arrastam. O tempo passa-lhe pesado. Os turistas ignoram-no. Estão de férias. Mas Ele nunca tira férias. Pára apenas de se arrastar. Entre um autocarro e outro, quando volta para o passeio e se senta na pedra fria, fica a recordar a única viagem que fez na vida – com a mãe, criança, também de autocarro. É por isso que Ele gosta de estar ao pé deles, os monstros das rodas grandes. Todos os dias lhes sente o cheiro que sai do tubo de escape. O cheiro da borracha dos pneus. O cheiro do gasóleo. Esses aromas dessa recordação doce, a única recordação doce que vive dentro dele. Quando os autocarros arrancam, depois de despejarem turistas que se afastam ignorando o homem que se arrasta atrás deles, apontando a garganta muda – que simplesmente deixou de funcionar, como um rádio antigo ao qual há muito ninguém muda as pilhas – Ele regressa ao passeio e fica a ver as rodas gigantes começarem a girar para que o monstro dê início à marcha. Não fala. Nem poderia, mesmo que quisesse. Contenta-o que os pneus imundos de tanta estrada chiem por si, irritando o descanso balofo dos que o ignoram. Não fala e agora também já não gesticula. Regressou, arrastando-se, até ao passeio e fechou os olhos. Tem outra vez nove anos e está a entrar no autocarro com a mãe. Vai partir.

Martha Mendes
(22 Agosto de 2009)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A única religião que conheço

São mentiras cor-de-rosa
Prosa que me faz doer a alma
Desacalma a pele
Arrefece o vento que carece de força
Nele encontro o tempo
Templo da única religião que conheço
Reconheço no mundo o lugar primeiro
Vagueio, contudo.
E com tudo rumo a ti.
Tu
que és a única religião que conheço.

Martha Mendes
(11 Agosto de 2009)