domingo, 11 de janeiro de 2009

Será que ainda fui a tempo?

Era quase meia-noite. “Tens de desejar! Deseja tudo agora. É quase meia-noite!”, diziam. Está bem. Vou desejar. Vou fechar os olhos e desejar com tanta força que talvez este ano se torne realidade. Desejo mais dias de sol. Escrever todos os dias nem que seja só meia-dúzia de linhas. Abraços e ramos de flores sem ter de os pedir. Passear sozinha com a mana como quando éramos adolescentes e tínhamos mais tempo uma para a outra. Que o pai se ria mais vezes porque, apesar de ele não saber, tem o riso mais bonito do mundo e ouvi-lo rir é ganhar o euromilhões duas vezes na mesma semana. Quero que a mãe viva para sempre e que o tio ressuscite. Quero um quadro da Inês pintado de propósito para mim, com uma dedicatória nas costas. Quero que o coração dela se encha de uma vez para sempre. Estar mais vezes com o Casimiro. E que ele traga a guitarra e toque, como quando tínhamos 16 anos. Quero ouvi-la dizer “estou grávida outra vez, o Zé vai ter um mano”, enquanto põe a mão na barriga e sorri. Quero mais jardins, praias e crianças na minha vida. Quero que a Renata tenha sucesso. Que o meu esforço não seja em vão. Ter tempo para saborear um café descansada numa esplanada. Em dias de sol e em dias de muito frio. Quero que ele fale comigo. Não quero magoar ninguém nunca mais. Estalou a rolha do champanhe. “Já é meia-noite! Bom ano!”. E quero a verdade. A minha verdade. Isso é o que mais quero, no fundo mais fundo de mim. Será que ainda fui a tempo?

Martha Mendes
(Macau, 12 Janeiro 2009)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Medo

É cinzento e veste preto
este cimento que paralisa.
É um frio na espinha,
precipício que se adivinha no fim de cada rua.
É um caminho escuro,
reflexo que te mostra nua num quarto fechado.
É estar isolado, cheio de gente.
Máscara sem furo para respirar
nas brumas do nevoeiro demente.
Silêncio que zumbe calado
no discurso mudo, inconsciente.

Martha Mendes
(Macau, 5 Janeiro 2008)

Rosas pretas

Não há rosas pretas
nem borboletas debaixo da terra.
Não há chave que abra a porta que emperra
nem líquido que tire a ferrugem das letras.
Não há rosas pretas
nem preto encarnado
no jogo viciado
de procurar rosas pretas
num campo relvado.

Martha Mendes
(Macau, 5 Janeiro 2009)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Sem medo

Vou falar sem medo que as palavras fujam.
Ouvir sem medo de não entender.
Tocar sem medo de ser rejeitada.
Ser tocada sem medo de me perder.

Olhar para o céu
mesmo sem lhe ver a entrada.
Levantar o véu
sem saber o que vou ver.

Coser os laços.
Perder o medo.
Colar os pedaços.

Ainda é cedo para parar de correr.

Deixar sangrar.
Abrir os olhos.
Acreditar na cura.

Vou olhar para o céu
mesmo sem lhe ver o fim.
Ainda é cedo para me deixar morrer.

Martha Mendes
(Macau, 4 Janeiro 2009)