segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Poetas das madrugadas sem fim

Poetas do tempo perdido,
sem hora,
sem aqui nem agora,
nasceram das conversas que duravam horas a fio
nos cafés das madrugadas longas.

Poetas da terra de ninguém,
do lugar do frio e do silêncio,
nasceram dos filhos que cresceram
em barrigas de mulheres cheias de amor.

Poetas sem nome,
nem terra, nem tempo,
nem assento em casa de família,
vieram ao mundo
num canto esquecido.

Poetas mortos,
de um tempo vivido
sem credo nem homilía,
nem raça, nem mordaça na boca.

Poetas escritores de vidas,
nascidos em camas rabiscadas,
cresceram na escrita,
morrendo aos poucos
nas larvas das palavras,
num vão de escadas
das longas madrugadas sem fim.

Martha Mendes
(19 Dezembro de 2011)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Cristais de pó

Cristais de pó de passado
enchem a pele
e o corpo
analisado poro a poro
pelo tempo.

Cristais de frio
e morte
entram pela pele
no corte que separa o coração do resto.

Cristais de pó de tempo
com porte de eternidade
pousam sobre o relógio desonesto
sem fim, nem fundo, nem idade.

Cristais de pó de vida
chovem sobre a dúvida de existência
e alagam as certezas.

Pós de cristal
pousam sobre a vida
e cobrem de pó o rosto,
no final,
à hora do sol posto.

Martha Mendes
(6 Dezembro de 2011)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Energia

Há um silêncio de paz
no barulho homogéneo das crianças
E um zumbido infernal
no silêncio da solidão.

De que som é feito o silêncio?

Há um branco claro e perene
No preto do luto
E uma paleta inteira de cores
No branco da paz.

De que cor é feito o branco?

Há tanta energia
num pensamento silencioso
E tanta inércia
na colectiva algazarra inebriada.

De quanta energia é feito um pensamento?

Martha Mendes
(1 Dezembro de 2011)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Maçã

Avanço, a espaços,
por entre o tempo.
Abro os braços,
para o vento temperado,
para a chuva quente da manhã.
Amanhã retomarei os laços
e as voltas ritmadas da dança dos dias inteiros.
Os afectos e os abraços,
a chuva quente,
por entre os nevoeiros da manhã,
e o cansaço de todos os dias.
Amanhã as horas voltarão a fazer sentido
voltarei a abrir o livro lido
voltarei à dança costumeira.
Mas hoje,
aqui onde ninguém me vê,
quero só o bafo quente da manhã
e, por uma vez,
abrir os braços
e morder a maçã.

Martha Mendes
(1 Novembro de 2011)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Primeiro foi a seca

Primeiro foi a seca
e o sangue a levedar em mim.
Foi a sede e a soltura
e a solidão escura na noite negra.

Primeiro foi a seca e a sede
e a saudade de suar a solidão,
deserta e seca,
na noite escura.

Primeiro foi a palavra surda
e cega
e a seca e a sede
no suor da noite.

Foi primeiro a seca
surda e cega
da seda dos sentidos
que secam a solidão.

Foi primeiro a palavra surda
sedenta da seda muda
que cala a solidão.

Martha Mendes
(7 Outubro de 2011)