Grito.
Grito alto do alto de mim
e rasgo o som com a minha dor.
Grito.
Berro.
Gemo.
Choro.
E grito,
na revolta primitiva, ancestral.
Grito a raiva sempre contida
liberto a dor mortal
de não aguentar a perda,
a pressão,
o desejo.
De não aguentar ter de escolher entre tantos caminhos.
De não aguentar.
De não aguentar mais.
A expansão. O fim da estrada. A vida acorrentada, amarrada.
Grito,
porque perdido nos acho sozinhos
e sozinho tenho medo.
Grito.
Porque não quero o caminho por onde enveredo.
Quero antes o outro, que não escolhi.
Grito sozinho. Sem ti. Sem mim dentro de mim.
Grito ausente do que sou,
onde estou e não estou.
Grito porque a linguagem não basta
para expulsar a raiva de não querer caminho algum.
Grito.
E sofro, dorido por ser apenas mais um.
Martha Mendes
(Maio de 2008)