segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Cicatriz

Fenda aberta para sempre
Na seda da pele.
Vereda estreita, azeda,
no mapa do meu corpo.
Marca de uma contenda
Das mil que a vida me deu.
Carimbo sem emenda
Da luta do ontem.
Cacimbo de águas pantanosas.
Cicatriz.
Essa linha que demarca
Dois lados da pele.
Dois lados da alma.
Um momento.
Fenda que o tempo acalma
e a memória acende.
Rio correndo por entre dois bocados de mim.
Cicatriz.
Bissectriz que parte do ângulo das lembranças.
Actriz a actuar sozinha no palco do meu corpo.
Embaixatriz do que já vivi.
Essa linha que demarca dois lados da carne.
Ferida feia que repele.
Encarne da dor que senti.
Para sempre marcada a ferros,

tatuagem alheia em mim.

Martha Mendes
(11 Agosto 2008)