sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O cabelo de seda do miúdo da janela

O cheiro a agri-doce que nunca deixa as ruas. Os rostos amarelos de olhos rasgados. Milhares deles. Milhões. O miúdo que todas as tardes fica parado à janela até lhe atirarmos um beijo. A menina que traz sandes ao jornal e me trata sempre por "a rapariga bonita" na língua dela que eu não percebo e o Vítor só traduz quando ela já vai a descer a rua e eu já não vou a tempo de lhe sorrir. A Joan a dizer "bacalhau" e a tentar ensinar-me chinês. A caixa cheia de e-mails dos que estando longe nunca saem de mim. O rosto novo daqueles que chegaram agora e já estão para ficar. O cheiro a jornal, sempre. As letras impressas. A tinta a tingir os dedos, as estórias a alimentar o papel. A vida a acontecer. Outra vez, até o miúdo bater novamente no vidro a pedir que lhe atire um beijo. Qualquer dia vou lá fora e dou-lhe mesmo um beijo. Pego-o ao colo e faço-lhe uma festa no cabelo preto para descobrir se tem toque de seda tanto quanto parece.

Martha Mendes
(Macau, 28 Novembro 2008)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Beijo na alma

Quero um beijo na alma
e outro na palma da mão.
Quero um abraço para sempre.
E ser o regaço do teu coração.

Quero um beijo na alma.
E essa voz que me acalma
para sempre no ouvido.
Peço um beijo do teu corpo
no meu dissolvido.
Quero esse beijo terno
com que mato a carência de ti.
Peço os teus lábios,
ciência exacta da minha paixão.
Quero um beijo na alma.
E outro na palma do coração.

Martha Mendes
(Macau, 16 Novembro 2008)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Horas certas

Batem as horas certas
no momento errado.
Janelas abertas
em dias de chuva.
Tacada ao lado
na bola rival.
Senhora de luvas
em pleno verão.
Bala perdida 
ou tiro no pé.
Filha menina
ou filho varão.
Dia de sorte
que corre mal.
Desejo de vida
na recta final.
O fraco e o forte
na mesma cidade.
Batem as horas
mas falta um segundo.
Depois de afogado
já não vais ao fundo.
Qual é a verdade?
Acabado de chegar
partir outra vez.
Inimigos de dia
de noite amantes
Manuel e Maria
personagens em palco.
Acertam o passo no último acto.
Batem as horas no minuto exacto.

Martha Mendes
(Macau, 5 Novembro 2008)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Ventos de Mudança

Sopram ventos de mudança,
ao fim do novo dia.
Ventos do Norte
anunciam sorte ou azar.
O relógio não adia mais.
Alimentos de esperança,
criança cheia de vida,
aliança no dedo de um apaixonado.
Dou novos passos,
para recuperar a confianca.
Sem medo dos excessos,
inconfessos pecados de todos nós,
dou novos passos.
Sopram ventos de mudança,
num prenúncio de vida nova.

Martha Mendes
(Macau, 3 Novembro 2008)