terça-feira, 21 de outubro de 2008

Janelas

As janelas da minha rua
abrem para o amanhecer.
Uma luz quente e crua
ilumina o novo dia.
A gente caminha numa dança que assobia,
num compasso que flutua,
como a vida, vista desta janela.
Sinto, para além da moldura fria,
a brisa quente balouçar os tecidos sobre a pele.
O tempo desliza sobre o tempo
e sobre as vidas.
Umas semeia, outras desenraíza.
Olho o mundo através do vidro.
Sinto com os olhos
dores que não são minhas.
Vejo as cores embaciadas pela janela.
Toco, sem sentir, outras peles
e nenhuma pele é igual à dela.

Martha Mendes
(Macau, 21 Outubro 2008)

sábado, 18 de outubro de 2008

Presas da vontade

Palavras soltas
em poesia, em prosa,
saem de mim quando não voltas.
São gritos. São hinos.
Não são nada
senão espinhos da mesma rosa.
Loucuras a que dou forma de letras.
Formas desenhadas,
linhas pretas,
com que descrevo as torturas do desencontro.
De encontro ao papel,
procuro-te.
Curo-te, doença em mim, com as palavras.
Licença para me mostrar nua.
Pele, alma, coração, cabeça
são escravas sem liberdade.
Palavras soltas,
presas da vontade que há em mim.

Martha Mendes
(Macau, 18 Outubro 2008)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Quando nos amamos

Somos trança de indiana,
cesta de verga,
ponto de cruz.
Somos rede de malha apertada,
costura reforçada,
José, Maria e Jesus,
nós os dois, quando nos amamos.

Somos semente a rebentar a terra,
gente a vir ao mundo,
submarino em mar profundo.
Somos prego a rasgar a madeira,
eco que se propaga,
vida verdadeira,
nós os dois, quando nos amamos.

Somos raíz de árvore centenária,
chave que abre o cofre do tesouro.
Somos ouro sobre azul,
folhas do mesmo livro,
livros do mesmo autor,
meu amor, quando nos amamos.

Martha Mendes
(Macau, 15 Outubro 2008)

Retratos antigos

Retratos a sépia, a preto e branco.
Bocados de vida,
recantos de gente.
Manto mil vezes remendado,
estória lida e relida.
Derrota e Vitória,
Glória e Decadência.
Retratos a sépia
preenchem a ausência.
Retratos a preto e branco
Retalho do manto da vida.
Imagem perdida no tempo,
estórias de regresso,
estórias de partida.
O encontro fez-se sempre no mesmo porto.
Cais de homens, amigos, amantes.
Retratos antigos.
A vida parada por instantes.

Martha Mendes
(Macau, 14 Outubro de 2008)