Não posso viver nos olhos de um homem
mas posso morrer neles.
A tentar calar o que os olhos dizem
já morri, eu, tantas vezes.
A tentar ver para lá dos olhos
encandiei-me na imensa luz da alma.
Não posso viver de forma calma:
não sei de quantos amanhãs se faz o tempo.
Não posso viver no vento
mas morro se,
como ele,
não toco todas as peles,
não beijo todas as árvores.
Por levantar mantos proibidos,
esconderijo de segredos abrasivos,
já tantas vezes queimei as pálpebras.
Morremos de olhos fechados.
Não podemos abri-los, enquanto vivos?
Martha Mendes
(14 Fevereiro de 2012)
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
A Casa e a Velha
A casa daquela velha tem lá dentro a solidão
e muito tempo que passa devagar,
muitas horas vazias,
e, no sótão, muitas azias de estômago de velha.
Tem uma porta com postigo
a casa que não se abre a ninguém.
Só a morte vai lá dentro.
É um jazigo, mas a velha não sabe.
Ela nunca vai à rua:
é refém daquele espaço.
Cada parede tem um pedaço seu.
Lá dentro, a velha faz parte de tudo
e tudo naquela casa está dentro da velha.
A velha mesa de bilhar, sua vesícula biliar,
Cada taco do chão, um músculo do coração,
Cada corredor, um órgão do sistema reprodutor.
Com os anos, a velha fundiu-se com a casa
e agora, ambas são uma coisa só.
Mas a velha não se sente só:
Tem as janelas, as paredes, as portas,
suas artérias aortas,
e cada um dos grãos de pó
[que não limpa há muitos anos]
e cada uma das teias que enchem os canos
[por onde a água deixou de correr].
Tem plantas que deixaram de viver
mas ela mantém os vasos,
porque lhe trazem memórias
do tempo em que vivia fora da casa,
na asa dos sonhos e da vida.
Um dia a velha vai morrer e ninguém a vai encontrar:
Ficará incorporada nas paredes da casa,
Com o pó, as teias e as plantas mortas.
Nem um farrapo restará do seu corpo:
Será tudo fundido com as molduras tortas
suspensas nessas paredes que são a sua vida.
Ficará perdida,
ou,
então,
por fim,
encontrada,
alada para voar paredes afora.
Martha Mendes
(6 Fevereiro de 2012)
e muito tempo que passa devagar,
muitas horas vazias,
e, no sótão, muitas azias de estômago de velha.
Tem uma porta com postigo
a casa que não se abre a ninguém.
Só a morte vai lá dentro.
É um jazigo, mas a velha não sabe.
Ela nunca vai à rua:
é refém daquele espaço.
Cada parede tem um pedaço seu.
Lá dentro, a velha faz parte de tudo
e tudo naquela casa está dentro da velha.
A velha mesa de bilhar, sua vesícula biliar,
Cada taco do chão, um músculo do coração,
Cada corredor, um órgão do sistema reprodutor.
Com os anos, a velha fundiu-se com a casa
e agora, ambas são uma coisa só.
Mas a velha não se sente só:
Tem as janelas, as paredes, as portas,
suas artérias aortas,
e cada um dos grãos de pó
[que não limpa há muitos anos]
e cada uma das teias que enchem os canos
[por onde a água deixou de correr].
Tem plantas que deixaram de viver
mas ela mantém os vasos,
porque lhe trazem memórias
do tempo em que vivia fora da casa,
na asa dos sonhos e da vida.
Um dia a velha vai morrer e ninguém a vai encontrar:
Ficará incorporada nas paredes da casa,
Com o pó, as teias e as plantas mortas.
Nem um farrapo restará do seu corpo:
Será tudo fundido com as molduras tortas
suspensas nessas paredes que são a sua vida.
Ficará perdida,
ou,
então,
por fim,
encontrada,
alada para voar paredes afora.
Martha Mendes
(6 Fevereiro de 2012)
Subscrever:
Mensagens (Atom)