terça-feira, 5 de agosto de 2008

A Vida despiu-se à minha frente

Ontem a vida bateu-me à porta.
Vinha cheia e vazia.
A rir e a chorar.
Vinha quente e fria.
A vida bateu à porta e mostrou-me o cardápio.
Tinha sal e pimenta.
O fim e o princípio.
Doce e azedo.
Tudo o que a condimenta.
Mostrou-me as linhas da mão.
Contou-me todas as estórias
de que o tempo se alimenta.
A vida bateu-me à porta.
Vinha feliz.
Vinha triste.
Trazia uma força que nada aborta.
Ontem vi a vida.
Despiu-se à minha frente.
Mostrou-me as queimaduras do tempo,
as cicatrizes das dores,
sofridas a fogo lento.
Os rasgos de felicidade.
As pegadas da paixão,
impressas na palma da mão.
A vida contou-me da sua agilidade.
Contou-me a estória da vida dela.
De quantas vezes seduz a adversidade.
Da afinidade que mantém com a morte.
Ontem a vida bateu-me à porta,
calhou-me em sorte,
e mostrou-me que sou parte dela.
Desta favela de caminhos entrecruzados
De gritos abafados, sonhos abalados.
Dos abraços apertados,
que nos enchem por dentro.
Dos tombos da vida

de que saímos levantados.

Martha Mendes

(5 de Agosto 2008)