segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

No rasto da vida

Há um rasto de gente
Há um rasto de sombra
Nas pegadas da vida.

Há um rasto de vida
Há um rasto de morte
Nas pegadas do tempo.

Há um rasto de sorte
Há um rasto de vento
Nas pegadas das estórias.

Há pegadas de gente
De vida e de morte
De azar e de sorte
No rasto da vida.

Martha Mendes
(Macau, 29 Dezembro 2008)

sábado, 27 de dezembro de 2008

Pequenos lares nas ruas da cidade

Todas as cidades têm pequenos lares espalhados pelas ruas: os cafés. São territórios de ninguém que acabam por ser nossos, à medida que se torna um hábito frequentá-los. As pessoas começam a chamar-nos pelo nome e a trazer o copo de água que bebemos sempre com o café, mesmo sem o termos pedido. Retiram o cinzeiro da mesa quando nos sentamos porque sabem que não fumamos e que odiamos tabaco. Não sabem que o odiamos porque ele nos roubou o pulmão do homem que mais amamos no mundo, mas pressentem que é um ódio para a vida e apressam-se a retirá-lo da mesa assim que nos vêem entrar. Nos cafés estudamos, marcamos encontros, revemos pessoas a quem o tempo e a vida nos fez perder o rasto. Contamos e ouvimos segredos, conversamos, vivemos momentos que nos ficam gravados na memória. Outro dia ouvi alguém dizer “quando percebi que o 11 de Setembro estava a acontecer estava no meu café”. No “meu café”. Alguns são mesmo lugares históricos, que serviram de palco ao início de grandes paixões, ao germinar de revoluções na cabeça e no coração dos que haviam de comandar as tropas, lugares de inspiração para artes e literatura. Para quem está fora de Portugal, encontrar um desses lugares, parecido com o “lá da rua”, é muitas vezes um regresso ao caminho. Eu encontrei um. É um pequeno lar português, numa viela do centro da cidade. O seu nome significa “Macau” em chinês. Lá dentro, a voz de Mariza arranca do sangue luso “Oh Gente da Minha Terra”, enquanto pessoas de traços orientais olham para a ementa e apontam o que querem. Alguns arriscam-se por essa língua desconhecida. “Um pastel de nada, uma torrada, uma bica”, dizem num português marcado pelo sotaque da terra do dragão. Outros, naquela que é a língua mãe, conversam sobre o Portugal distante. Ainda que de forma diferente, todos estão em casa neste pequeno lar da família da cidade.

Martha Mendes
(27 Dezembro 2008)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Lágrima

Senti-a descer pelo rosto,
como uma pedra que rola pela montanha.
Pesada, percorreu a curva do nariz,
deu verniz ao olhar baço.
Molhada, fez húmidas as pestanas escuras.
Senti-a descer pelo rosto,
desenho de linhas duras.
Era um lágrima.

Provei-a.

Era uma lágrima, era sal, era mosto.
Água enlameada de solidão.
Sangue transparente, ao mundo exposto.
Água bombeada do meu coração,
esta lágrima do lago da tua ausência.

Martha Mendes
(Macau, 21 Dezembro 2008)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

No mar do nosso corpo

Navego contigo
no mar do nosso corpo.
Na tua pele investigo
restos do nosso sal.

Seguimos a rota dos ventos.
Mar adentro naufragados,
cruzamos o mar alto.
Lentos, descemos os nós
com que percorremos as milhas do desejo.
Perdida no nosso navio,
sou náufraga sem colete
no assobio da tua voz.

Caravela apaixonada
navego em ti.
A barlavento ou a sotavento
vamos entregues ao coração.
Velejadores em mar alto,
eu sou vela, tu és vento,
na rota desta paixão.

Martha Mendes
(Macau, 19 Dezembro 2008)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sentido desavindo

Perdes o cheiro e o receio do mundo toma conta de ti.
Perdes o toque e vais a reboque de sentimentos que não são teus.
Perdes a audição e deixas de ouvir o som do teu próprio coração.
Deixas de ver e passas a ler nos outros aquilo que devias ser tu.
Não provas mais nada, para o sabor das pessoas não te voltar a enganar.

O que é de ti, neste sentido desavindo de não ter sentidos que cheguem para viver?

Martha Mendes
(Macau, 14 Dezembro 2008)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Onda

Há uma onda no mar
que insiste em passar-me por cima.
Como uma gioconda
que me aperta o pescoço
em plena selva.
Vulva que me suga
para um qualquer
buraco negro.
Arrastão que me leva o corpo,
que desintegro
enrolada nesta onda.
Onça que me rói cada osso,
felino que me prende
mas eu emposso.
Esta onda do mar
que me enrola até à terra,
é um escorpião que me ferra
até queimar de veneno.
Esta onda salgada
onde ando enrolada
arrasta-me no seu turbilhão.
É gioconda, onça e escorpião
e, no entanto, é um abraço de vida.

Martha Mendes
(Macau, 5 Dezembro 2008)