sábado, 27 de dezembro de 2008

Pequenos lares nas ruas da cidade

Todas as cidades têm pequenos lares espalhados pelas ruas: os cafés. São territórios de ninguém que acabam por ser nossos, à medida que se torna um hábito frequentá-los. As pessoas começam a chamar-nos pelo nome e a trazer o copo de água que bebemos sempre com o café, mesmo sem o termos pedido. Retiram o cinzeiro da mesa quando nos sentamos porque sabem que não fumamos e que odiamos tabaco. Não sabem que o odiamos porque ele nos roubou o pulmão do homem que mais amamos no mundo, mas pressentem que é um ódio para a vida e apressam-se a retirá-lo da mesa assim que nos vêem entrar. Nos cafés estudamos, marcamos encontros, revemos pessoas a quem o tempo e a vida nos fez perder o rasto. Contamos e ouvimos segredos, conversamos, vivemos momentos que nos ficam gravados na memória. Outro dia ouvi alguém dizer “quando percebi que o 11 de Setembro estava a acontecer estava no meu café”. No “meu café”. Alguns são mesmo lugares históricos, que serviram de palco ao início de grandes paixões, ao germinar de revoluções na cabeça e no coração dos que haviam de comandar as tropas, lugares de inspiração para artes e literatura. Para quem está fora de Portugal, encontrar um desses lugares, parecido com o “lá da rua”, é muitas vezes um regresso ao caminho. Eu encontrei um. É um pequeno lar português, numa viela do centro da cidade. O seu nome significa “Macau” em chinês. Lá dentro, a voz de Mariza arranca do sangue luso “Oh Gente da Minha Terra”, enquanto pessoas de traços orientais olham para a ementa e apontam o que querem. Alguns arriscam-se por essa língua desconhecida. “Um pastel de nada, uma torrada, uma bica”, dizem num português marcado pelo sotaque da terra do dragão. Outros, naquela que é a língua mãe, conversam sobre o Portugal distante. Ainda que de forma diferente, todos estão em casa neste pequeno lar da família da cidade.

Martha Mendes
(27 Dezembro 2008)