quarta-feira, 18 de junho de 2008

O que importa quem fala?

O que importa quem fala,
se não percebo a sua língua?

O que importa quem fala,
se não fui ensinado a ouvir?

O que importa quem fala,
se o discurso não chega a todos?

O que importa quem fala,
se as palavras não chegam nunca?

O que importa quem fala,
se só o texto sobrevive ao fim?

Martha Mendes
(Maio de 2008)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

11 de Junho, Dia da Inês

Porque ainda não é meia-noite, ainda vou a tempo de te deixar gravada aqui.

23 anos nasceu uma das pessoas mais importantes da minha vida.
MARIA INÊS. A minha amiga mais antiga, a minha amiga mais amiga. Lado a lado desde sempre. Em tantas descobertas; nas lágrimas, risos e sorrisos, vitórias e derrotas. Contornando tantas curvas apertadas. Nas infinitas cumplicidades e horas bem passadas. Tantos afectos e tantas dúvidas que tu ajudaste a tornar certezas. E uma vida toda para continuarmos a ser uma da outra. Mais 23. Mais 46. Estou por aqui. Sempre.

PARABÉNS Nes! :)
Adoro-te.

sábado, 7 de junho de 2008

À Margem

Sonho com o real
e ponho o mar onde ele não cabe.
Acabo com o mal,
para que o mal não nos desabe.

Retorno à inocência.
Abafo os gritos por clemência.
Bloqueio os tiros e as granadas.
Dou as guerras por acabadas.

Com o mar ao fundo e o vento a ferir a pele,
penso no amanhã.
Ferida do vento e da vida,
idealizo o mundo.
Tentativa vã de me manter crente.

Sentada sobre a paisagem,
em linha com o horizonte,
vejo a vida passar rente mas longe demais.
Desalinho o mundo numa miragem.
Sento os loucos na linha da frente.
Esses sãos e lúcidos anormais.
Os outros vêem-me louca também.
Mas não cesso o ímpeto de inconstância.

Vou mais além.
Permaneço aquém.
E continuo à margem.

Martha Mendes
(Maio de 2008)

Grito

Grito.
Grito alto do alto de mim
e rasgo o som com a minha dor.
Grito.
Berro.
Gemo.
Choro.
E grito,
na revolta primitiva, ancestral.
Grito a raiva sempre contida
liberto a dor mortal
de não aguentar a perda,
a pressão,
o desejo.
De não aguentar ter de escolher entre tantos caminhos.
De não aguentar.
De não aguentar mais.
A expansão. O fim da estrada. A vida acorrentada, amarrada.
Grito,
porque perdido nos acho sozinhos
e sozinho tenho medo.
Grito.
Porque não quero o caminho por onde enveredo.
Quero antes o outro, que não escolhi.
Grito sozinho. Sem ti. Sem mim dentro de mim.
Grito ausente do que sou,
onde estou e não estou.
Grito porque a linguagem não basta
para expulsar a raiva de não querer caminho algum.
Grito.
E sofro, dorido por ser apenas mais um.

Martha Mendes
(Maio de 2008)

Ausente de Mim

A trovoada na rua
rompe o vazio dentro de mim.
O eco vindo do céu escuro
encontra-me nua do que quis ser.

Sozinha, fico à minha procura.
Vasculho todos os recantos,
enquanto me instauro nesta tortura de te ter ausente de mim.

Sozinha, trilho caminhos que não conheço.
Perdida.
Sem mapa.
Tropeço.

Sozinha, procuro por mim.
Sem bússola.
Sem rota.
Sem ti.

Sozinha, procuro-me demente.
Até que ausente do que fui
encontro o fim.

Martha Mendes
(Março de 2008)

sexta-feira, 6 de junho de 2008

"A terra não é pura.
A vida não é fácil.
Os seres humanos não são maus.
Mas também não são bons.
Vivem como podem.
Dia após dia."

O Sonho, de Strindberg
(Em cena no TEUC, a comemorar 70 anos)

PS: Obrigada pela excelente companhia Carolina e Crisóstomo!
"O papel é pequeno para tantos ensinamentos, histórias e cumplicidades nossas; mas a vida bem mais longa."
Como diria a Carolina : "Voçês fazem-me bem!" :)

Em Jogo

Errante, vivo na dualidade do que sou.
Entre o oito e o oitenta.
Entre a espada e a parede.
Entre a parede,
muralha que me fecha em mim mesma.
Entre a espada,
aguçada lâmina onde me firo a cada passo.

Passo.

E passo porque as vitórias me derrotam.
Passo porque não sigo as regras.
Passo porque as regras me preseguem.
A cada passo, uma armadilha.
Os caminhos são corredores de ratoeiras sobre as quais vou saltando.
Sempre indecisa,
hesito entre fugir ou deixar-me apanhar na rede.
Sempre indecisa,
hesito.
Errante, salto entre o oito e o oitenta.
Falho a jogada.
E fico presa.
Entre a espada e a parede.

Martha Mendes
(Abril de 2008)