segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Quantos dias virão ainda?

Quantos dias virão ainda
antes que a luta se faça ombro a ombro?

Quantos dias virão ainda
antes que se calem os barulhos
vindos do escombro do que fomos?

Quantos dias virão ainda
antes que fales olhos nos olhos?

Quantos dias virão ainda
antes de sermos
o que realmente somos?

Martha Mendes
(26 Outubro de 2009)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sei de uma mulher

Sei de uma mulher
Que chora todas as noites
Lágrimas azuis e lilás
Lágrimas que corroem como aguarrás.

Sei de uma mulher
Que todas as noites ao deitar
Chora até deixar de ver
Até deixar de ver
O que a faz chorar.

Sei de uma mulher
Que tem olhos vermelhos a arder.
Já não tem cabelos
Nem pestanas, nem pêlos
Só lágrimas para chorar.

Sei de uma mulher
De olhos pretos como as ciganas,
córnea vermelha de inferno,
Que chora lágrimas
E ás vezes chamas.

Sei de uma mulher cujos olhos
Deitam lágrimas e lamas
Águas de inverno rigoroso
Dilúvio preto doloroso.

Martha Mendes
(23 Outubro de 2009)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

No lugar do sol

Hoje a lua desceu a meio da tarde.
E hão-de vir muitos dias em que isto se repita.

A lua há-de vir tomar conta do céu,
A lua há-de vir para escurecer o dia.
A lua há-de chegar às duas da tarde.
Uns dias vai chegar às três,
outros chegará às quatro.

E há-de vir o dia
em que já ninguém note
que esse é um dia especial
porque a lua está no lugar do sol.

Martha Mendes
(22 Outubro de 2009)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sombras e sobras

Andam sombras escondidas
à solta neste vale
A quantas dores equivale uma vida?
Entre luzes perdidas
Caminham sombras cinzentas.
A sério que lamentas?
Adiantas mais um passo à caminhada
São só sombras e mais nada.
Estive perdida,
Dividida de vida e de morte
Achada nas sombras
Desaparecida nas sobras
Das dobras que dás à vida.

Martha Mendes
(21 Outubro de 2009)

domingo, 11 de outubro de 2009

Arame farpado

Saltas o arame farpado
e passas a linha vermelha.

Vais para o passeio oposto
até ao outro lado do tabuleiro.
Há fel a gosto no açucareiro.

Usurpado ao passado
arriscas olhar de frente.
Temente a Deus, temente à gente.

Rebentas as correntes prisioneiro.
Saltas arame farpado.
Não há certo, não há errado.

A vida é adiante,
depois do muro de arame,
da linha vermelha.
Depois do certo,
depois do errado.
A vida é adiante.
Depois de cosido o coração rasgado.

Martha Mendes
(11 Outubro de 2009)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Dentro

Há um tijolo na parede da casa
Um coração dentro do peito
Há fogo dentro da brasa
E uma ideia em cada conceito.

Há um motor dentro do carro
Carne debaixo da pele
lama na constituição do barro
E sacarose na do mel.

Estão muitos tempos dentro do tempo
E muitas vidas dentro de mim.
Sessenta minutos dentro de uma hora
Muitas tonalidades para fazer carmim.

Há tanto mundo lá fora
E tanto tempo dentro de cada um.
Há tanto mundo lá fora.
Caberei em algum?


Martha Mendes
(7 Outubro de 2009)