O dia acordou castanho.
Rangem as madeiras.
Desfazem-se folhas secas.
O vento sopra num grito de estanho
de tom pardacento
e conta estórias que trouxe de longe
enquanto o frio unge a pele.
O tamanho do mundo está mais pequeno
hoje que o dia acordou castanho.
Presente,
por entre os tons de Outono,
vou e venho
ao futuro e ao passado.
Passaram mil estações
mas nunca parei de correr.
Cem vezes acusado
de não me deixar morrer.
Passaram mil estações de castanho.
Estranho continuar aqui.
Martha Mendes
(9 Dezembro de 2009)
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Pó
Verdades.
Mentiras.
Contos e contas
e tiras do que fomos.
Gnomos que nos guardam segredo.
Desse tesouro, desse credo.
As horas, os dias e os anos
Fulanos e Beltranos que habitam num só.
Tantas cores a preto e branco
No banco daquele jardim.
Pensamento saltimbanco
Que não pára de fugir de mim.
Fulanos e Beltranos que habitam num só.
As horas, os dias e os anos.
Seremos pó: as verdades e as mentiras,
os segredos e os gnomos ufanos.
Pó. Seremos pó.
Martha Mendes
(18 Novembro de 2009)
Mentiras.
Contos e contas
e tiras do que fomos.
Gnomos que nos guardam segredo.
Desse tesouro, desse credo.
As horas, os dias e os anos
Fulanos e Beltranos que habitam num só.
Tantas cores a preto e branco
No banco daquele jardim.
Pensamento saltimbanco
Que não pára de fugir de mim.
Fulanos e Beltranos que habitam num só.
As horas, os dias e os anos.
Seremos pó: as verdades e as mentiras,
os segredos e os gnomos ufanos.
Pó. Seremos pó.
Martha Mendes
(18 Novembro de 2009)
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Laranja Amarga
Laranja amarga
Sabor a lembrança
Sem doçura
Encontro amêndoa amarga
Na abundância do teu corpo
Raio a loucura
A cada gomo amargo
Travo de procura
Promessa de cura na
Laranja amarga de
Casca fina.
Pele dançarina
Sobre os gomos
Desta fruta proibida
Bebo-lhe o sumo
Embebida de ti.
Martha Mendes
(16 Novembro de 2009)
Sabor a lembrança
Sem doçura
Encontro amêndoa amarga
Na abundância do teu corpo
Raio a loucura
A cada gomo amargo
Travo de procura
Promessa de cura na
Laranja amarga de
Casca fina.
Pele dançarina
Sobre os gomos
Desta fruta proibida
Bebo-lhe o sumo
Embebida de ti.
Martha Mendes
(16 Novembro de 2009)
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Quantos dias virão ainda?
Quantos dias virão ainda
antes que a luta se faça ombro a ombro?
Quantos dias virão ainda
antes que se calem os barulhos
vindos do escombro do que fomos?
Quantos dias virão ainda
antes que fales olhos nos olhos?
Quantos dias virão ainda
antes de sermos
o que realmente somos?
Martha Mendes
(26 Outubro de 2009)
antes que a luta se faça ombro a ombro?
Quantos dias virão ainda
antes que se calem os barulhos
vindos do escombro do que fomos?
Quantos dias virão ainda
antes que fales olhos nos olhos?
Quantos dias virão ainda
antes de sermos
o que realmente somos?
Martha Mendes
(26 Outubro de 2009)
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Sei de uma mulher
Sei de uma mulher
Que chora todas as noites
Lágrimas azuis e lilás
Lágrimas que corroem como aguarrás.
Sei de uma mulher
Que todas as noites ao deitar
Chora até deixar de ver
Até deixar de ver
O que a faz chorar.
Sei de uma mulher
Que tem olhos vermelhos a arder.
Já não tem cabelos
Nem pestanas, nem pêlos
Só lágrimas para chorar.
Sei de uma mulher
De olhos pretos como as ciganas,
córnea vermelha de inferno,
Que chora lágrimas
E ás vezes chamas.
Sei de uma mulher cujos olhos
Deitam lágrimas e lamas
Águas de inverno rigoroso
Dilúvio preto doloroso.
Martha Mendes
(23 Outubro de 2009)
Que chora todas as noites
Lágrimas azuis e lilás
Lágrimas que corroem como aguarrás.
Sei de uma mulher
Que todas as noites ao deitar
Chora até deixar de ver
Até deixar de ver
O que a faz chorar.
Sei de uma mulher
Que tem olhos vermelhos a arder.
Já não tem cabelos
Nem pestanas, nem pêlos
Só lágrimas para chorar.
Sei de uma mulher
De olhos pretos como as ciganas,
córnea vermelha de inferno,
Que chora lágrimas
E ás vezes chamas.
Sei de uma mulher cujos olhos
Deitam lágrimas e lamas
Águas de inverno rigoroso
Dilúvio preto doloroso.
Martha Mendes
(23 Outubro de 2009)
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
No lugar do sol
Hoje a lua desceu a meio da tarde.
E hão-de vir muitos dias em que isto se repita.
A lua há-de vir tomar conta do céu,
A lua há-de vir para escurecer o dia.
A lua há-de chegar às duas da tarde.
Uns dias vai chegar às três,
outros chegará às quatro.
E há-de vir o dia
em que já ninguém note
que esse é um dia especial
porque a lua está no lugar do sol.
Martha Mendes
(22 Outubro de 2009)
E hão-de vir muitos dias em que isto se repita.
A lua há-de vir tomar conta do céu,
A lua há-de vir para escurecer o dia.
A lua há-de chegar às duas da tarde.
Uns dias vai chegar às três,
outros chegará às quatro.
E há-de vir o dia
em que já ninguém note
que esse é um dia especial
porque a lua está no lugar do sol.
Martha Mendes
(22 Outubro de 2009)
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Sombras e sobras
Andam sombras escondidas
à solta neste vale
A quantas dores equivale uma vida?
Entre luzes perdidas
Caminham sombras cinzentas.
A sério que lamentas?
Adiantas mais um passo à caminhada
São só sombras e mais nada.
Estive perdida,
Dividida de vida e de morte
Achada nas sombras
Desaparecida nas sobras
Das dobras que dás à vida.
Martha Mendes
(21 Outubro de 2009)
à solta neste vale
A quantas dores equivale uma vida?
Entre luzes perdidas
Caminham sombras cinzentas.
A sério que lamentas?
Adiantas mais um passo à caminhada
São só sombras e mais nada.
Estive perdida,
Dividida de vida e de morte
Achada nas sombras
Desaparecida nas sobras
Das dobras que dás à vida.
Martha Mendes
(21 Outubro de 2009)
domingo, 11 de outubro de 2009
Arame farpado
Saltas o arame farpado
e passas a linha vermelha.
Vais para o passeio oposto
até ao outro lado do tabuleiro.
Há fel a gosto no açucareiro.
Usurpado ao passado
arriscas olhar de frente.
Temente a Deus, temente à gente.
Rebentas as correntes prisioneiro.
Saltas arame farpado.
Não há certo, não há errado.
A vida é adiante,
depois do muro de arame,
da linha vermelha.
Depois do certo,
depois do errado.
A vida é adiante.
Depois de cosido o coração rasgado.
Martha Mendes
(11 Outubro de 2009)
e passas a linha vermelha.
Vais para o passeio oposto
até ao outro lado do tabuleiro.
Há fel a gosto no açucareiro.
Usurpado ao passado
arriscas olhar de frente.
Temente a Deus, temente à gente.
Rebentas as correntes prisioneiro.
Saltas arame farpado.
Não há certo, não há errado.
A vida é adiante,
depois do muro de arame,
da linha vermelha.
Depois do certo,
depois do errado.
A vida é adiante.
Depois de cosido o coração rasgado.
Martha Mendes
(11 Outubro de 2009)
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Dentro
Há um tijolo na parede da casa
Um coração dentro do peito
Há fogo dentro da brasa
E uma ideia em cada conceito.
Há um motor dentro do carro
Carne debaixo da pele
lama na constituição do barro
E sacarose na do mel.
Estão muitos tempos dentro do tempo
E muitas vidas dentro de mim.
Sessenta minutos dentro de uma hora
Muitas tonalidades para fazer carmim.
Há tanto mundo lá fora
E tanto tempo dentro de cada um.
Há tanto mundo lá fora.
Caberei em algum?
Martha Mendes
(7 Outubro de 2009)
Um coração dentro do peito
Há fogo dentro da brasa
E uma ideia em cada conceito.
Há um motor dentro do carro
Carne debaixo da pele
lama na constituição do barro
E sacarose na do mel.
Estão muitos tempos dentro do tempo
E muitas vidas dentro de mim.
Sessenta minutos dentro de uma hora
Muitas tonalidades para fazer carmim.
Há tanto mundo lá fora
E tanto tempo dentro de cada um.
Há tanto mundo lá fora.
Caberei em algum?
Martha Mendes
(7 Outubro de 2009)
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
No escuro
Não encontro o que procuro.
No escuro não vejo o que tenho.
Venho para a chuva com medo do sol.
Tiro o relógio com medo do tempo.
Não encontro o que procuro.
Tenho a vida por um fio
Tenho um furo
Tenho um aperto.
Tenho-te perto.
Tenho-te longe.
Tenho-te?
Sou monge trancado num mosteiro.
Não me tenho por inteiro
Não encontro o que procuro
E no escuro não vejo o que tenho.
Martha Mendes
(3 Setembro de 2009)
No escuro não vejo o que tenho.
Venho para a chuva com medo do sol.
Tiro o relógio com medo do tempo.
Não encontro o que procuro.
Tenho a vida por um fio
Tenho um furo
Tenho um aperto.
Tenho-te perto.
Tenho-te longe.
Tenho-te?
Sou monge trancado num mosteiro.
Não me tenho por inteiro
Não encontro o que procuro
E no escuro não vejo o que tenho.
Martha Mendes
(3 Setembro de 2009)
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Fechada
Não me procurem nas ruas, becos e praças.
Há muito que me fechei em casa.
Não me procurem em casa, precorrendo os corredores de sala em sala.
Há muito que me fechei no quarto.
Não me procurem no quarto, sentada no parapeito da janela a sentir o vento.
Há muito que me fechei no armário.
Não me procurem no armário, encolhida no escuro.
Há muito que me fechei dentro de mim.
Martha Mendes
(26 Agosto de 2009)
Há muito que me fechei em casa.
Não me procurem em casa, precorrendo os corredores de sala em sala.
Há muito que me fechei no quarto.
Não me procurem no quarto, sentada no parapeito da janela a sentir o vento.
Há muito que me fechei no armário.
Não me procurem no armário, encolhida no escuro.
Há muito que me fechei dentro de mim.
Martha Mendes
(26 Agosto de 2009)
sábado, 22 de agosto de 2009
Ele
Ele não fala. Gesticula, gesticula muito, e levanta os braços em gestos enérgicos que dão maior visibilidade às roupas que o cobrem. Velhas e gastas, como Ele. Caladas e tristes, como Ele. Estende a mão como quem se arrasta. E arrasta-se mesmo até à porta do autocarro que descarrega os turistas que, sem saberem, também se arrastam. O tempo passa-lhe pesado. Os turistas ignoram-no. Estão de férias. Mas Ele nunca tira férias. Pára apenas de se arrastar. Entre um autocarro e outro, quando volta para o passeio e se senta na pedra fria, fica a recordar a única viagem que fez na vida – com a mãe, criança, também de autocarro. É por isso que Ele gosta de estar ao pé deles, os monstros das rodas grandes. Todos os dias lhes sente o cheiro que sai do tubo de escape. O cheiro da borracha dos pneus. O cheiro do gasóleo. Esses aromas dessa recordação doce, a única recordação doce que vive dentro dele. Quando os autocarros arrancam, depois de despejarem turistas que se afastam ignorando o homem que se arrasta atrás deles, apontando a garganta muda – que simplesmente deixou de funcionar, como um rádio antigo ao qual há muito ninguém muda as pilhas – Ele regressa ao passeio e fica a ver as rodas gigantes começarem a girar para que o monstro dê início à marcha. Não fala. Nem poderia, mesmo que quisesse. Contenta-o que os pneus imundos de tanta estrada chiem por si, irritando o descanso balofo dos que o ignoram. Não fala e agora também já não gesticula. Regressou, arrastando-se, até ao passeio e fechou os olhos. Tem outra vez nove anos e está a entrar no autocarro com a mãe. Vai partir.
Martha Mendes
(22 Agosto de 2009)
Martha Mendes
(22 Agosto de 2009)
terça-feira, 11 de agosto de 2009
A única religião que conheço
São mentiras cor-de-rosa
Prosa que me faz doer a alma
Desacalma a pele
Arrefece o vento que carece de força
Nele encontro o tempo
Templo da única religião que conheço
Reconheço no mundo o lugar primeiro
Vagueio, contudo.
E com tudo rumo a ti.
Tu
que és a única religião que conheço.
Martha Mendes
(11 Agosto de 2009)
Prosa que me faz doer a alma
Desacalma a pele
Arrefece o vento que carece de força
Nele encontro o tempo
Templo da única religião que conheço
Reconheço no mundo o lugar primeiro
Vagueio, contudo.
E com tudo rumo a ti.
Tu
que és a única religião que conheço.
Martha Mendes
(11 Agosto de 2009)
domingo, 28 de junho de 2009
O último nó
Sou apanhada pela vida certa
no lugar onde dói mais estar errada.
A folha rasgada não pára de sugar o coração.
Crescem calos nas mãos
de tanto amassar a alma.
Florescem ervas de desassossego
entre raízes de calma.
Ouso ficar cega para não ver.
Queimo os olhos para sentir dor.
Sinto doer para saber-me viva.
Sem espaço para errata,
A vida certa ata o último nó.
Sem dó da pessoa errada.
Martha Mendes
(28 Julho de 2009)
no lugar onde dói mais estar errada.
A folha rasgada não pára de sugar o coração.
Crescem calos nas mãos
de tanto amassar a alma.
Florescem ervas de desassossego
entre raízes de calma.
Ouso ficar cega para não ver.
Queimo os olhos para sentir dor.
Sinto doer para saber-me viva.
Sem espaço para errata,
A vida certa ata o último nó.
Sem dó da pessoa errada.
Martha Mendes
(28 Julho de 2009)
Cubo
Não é um cubo mas tem paredes
cantos e faces paralelas
espaço fechado sem janelas.
Ar insuficiente para respirar
línguas que não chegam para contar a estória
palavras com que lavras a memória
quando o cubo se fecha sobre ti,
corpo finito, mudo.
Mudo para outro canto do cubo.
Refugo do mundo,
fim, fundo do que foi.
Martha Mendes
(28 Julho de 2009)
cantos e faces paralelas
espaço fechado sem janelas.
Ar insuficiente para respirar
línguas que não chegam para contar a estória
palavras com que lavras a memória
quando o cubo se fecha sobre ti,
corpo finito, mudo.
Mudo para outro canto do cubo.
Refugo do mundo,
fim, fundo do que foi.
Martha Mendes
(28 Julho de 2009)
terça-feira, 23 de junho de 2009
Rascunho do coração
Passa por mim o passado quando te vejo.
O chão foge dos pés
A vida passa ao lado
Perco o norte
Falha-me a sorte
Buraco na alma.
Passa por mim o passado
Foge a calma
Mas o grito sai-me calado
Ando para lado algum
Sou recebida nesse sítio nenhum
Cresce o buraco na alma
Muda-se a estória escrita na palma da mão,
rascunho do coração que pára quando te vejo.
Martha Mendes
(23 Junho de 2009)
O chão foge dos pés
A vida passa ao lado
Perco o norte
Falha-me a sorte
Buraco na alma.
Passa por mim o passado
Foge a calma
Mas o grito sai-me calado
Ando para lado algum
Sou recebida nesse sítio nenhum
Cresce o buraco na alma
Muda-se a estória escrita na palma da mão,
rascunho do coração que pára quando te vejo.
Martha Mendes
(23 Junho de 2009)
domingo, 26 de abril de 2009
Segundo
Um segundo chega
segundo a pressa do tempo.
Chega a primeira queda…
…E tentas o segundo salto.
Sem segunda oportunidade.
Um momento que nunca mais se repete.
Na vida como na hora da verdade,
Um segundo e nasces outra vez.
De vez ou para nunca mais voltar:
Um segundo basta para acabar.
De vez ou para nunca mais voltar:
Um segundo chega para recomeçar.
Martha Mendes
(26 Abril de 2009)
segundo a pressa do tempo.
Chega a primeira queda…
…E tentas o segundo salto.
Sem segunda oportunidade.
Um momento que nunca mais se repete.
Na vida como na hora da verdade,
Um segundo e nasces outra vez.
De vez ou para nunca mais voltar:
Um segundo basta para acabar.
De vez ou para nunca mais voltar:
Um segundo chega para recomeçar.
Martha Mendes
(26 Abril de 2009)
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Do lado de cá
Dentro de mim cabe tudo.
O som mudo dos gritos que não lanço.
O descanso e o cansaço.
A tua presença e a tua falta.
Sangue, estômago, intestinos.
Instintos e vertigem em ponte alta.
Retintos minutos de tempo
e um coração onde me sento para pensar.
Os livros que não li e quero ler.
Falar, contar, calar.
O desejo de me perder em ti,
viagem que continuo sozinha.
Na minha, na tua, nossa rua.
Dentro de mim cabe a nossa canção,
que vem ter comigo todos os dias.
Sensação de que o mundo é pequeno.
Um veneno que não mata:
Desacata, desencanta.
Cabe o astronauta e o velho do Restelo.
Castelo no ar, moinho de vento.
O lado novo, o lado velho.
O envelhecido que reinvento.
Sou Elias, sou Jezabel,
cordão umbilical, umbigo que entra pela pele.
Sou o sonho do que poderia ter sido.
E debaixo do tecido de mim
cabe o que não foi e nunca será
mas ficou para sempre.
Para sempre do lado de cá.
Martha Mendes
(15 Abril de 2009)
O som mudo dos gritos que não lanço.
O descanso e o cansaço.
A tua presença e a tua falta.
Sangue, estômago, intestinos.
Instintos e vertigem em ponte alta.
Retintos minutos de tempo
e um coração onde me sento para pensar.
Os livros que não li e quero ler.
Falar, contar, calar.
O desejo de me perder em ti,
viagem que continuo sozinha.
Na minha, na tua, nossa rua.
Dentro de mim cabe a nossa canção,
que vem ter comigo todos os dias.
Sensação de que o mundo é pequeno.
Um veneno que não mata:
Desacata, desencanta.
Cabe o astronauta e o velho do Restelo.
Castelo no ar, moinho de vento.
O lado novo, o lado velho.
O envelhecido que reinvento.
Sou Elias, sou Jezabel,
cordão umbilical, umbigo que entra pela pele.
Sou o sonho do que poderia ter sido.
E debaixo do tecido de mim
cabe o que não foi e nunca será
mas ficou para sempre.
Para sempre do lado de cá.
Martha Mendes
(15 Abril de 2009)
A partir do branco
Rasgo o papel e parto outra vez do branco.
Num rasgo de coragem,
arranco palavra a palavra de dentro de mim.
Anulo tudo o que já fiz.
Invento.
Re-invento.
Aumento a distorção da realidade.
Procuro a verdade por dentro,
e reinvento-a no papel.
Cruel, este misto de mel e fel,
onde a criação se encontra.
As palavras.
Essa montra onde me exponho sem máscara.
Diáspora.
Catarse da alma, do ser, do eu.
O meu.
O teu.
O nosso.
Puxado do poço sem fundo de mim.
Rasgo o papel e parto outra vez do branco.
Arranco-me de mim,
para expor a pessoa que sou.
A nu.
A cru.
Vou escrevendo.
Sobre um branco franco,
espelho de mim que não deixa mentir.
Martha Mendes
(15 Abril 2009)
Num rasgo de coragem,
arranco palavra a palavra de dentro de mim.
Anulo tudo o que já fiz.
Invento.
Re-invento.
Aumento a distorção da realidade.
Procuro a verdade por dentro,
e reinvento-a no papel.
Cruel, este misto de mel e fel,
onde a criação se encontra.
As palavras.
Essa montra onde me exponho sem máscara.
Diáspora.
Catarse da alma, do ser, do eu.
O meu.
O teu.
O nosso.
Puxado do poço sem fundo de mim.
Rasgo o papel e parto outra vez do branco.
Arranco-me de mim,
para expor a pessoa que sou.
A nu.
A cru.
Vou escrevendo.
Sobre um branco franco,
espelho de mim que não deixa mentir.
Martha Mendes
(15 Abril 2009)
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Sob o sol
O tempo passa
e ouço a dança da água
ao som da ameaça
de que o mundo não espera por mim.
Debaixo do sol
o tempo teima em passar
No rol das horas que se desenrolam.
A pele estala, queima,
e, ao fundo, o mar que me embala
atira-se contra as rochas
numa luta antiga.
Enquanto o tempo passa
para que a vida prossiga.
Martha Mendes
(Funchal, 10 Abril 2009)
e ouço a dança da água
ao som da ameaça
de que o mundo não espera por mim.
Debaixo do sol
o tempo teima em passar
No rol das horas que se desenrolam.
A pele estala, queima,
e, ao fundo, o mar que me embala
atira-se contra as rochas
numa luta antiga.
Enquanto o tempo passa
para que a vida prossiga.
Martha Mendes
(Funchal, 10 Abril 2009)
sexta-feira, 3 de abril de 2009
A caminho de ti
A caminho de ti
encontrei uma cor nova.
Um livro que não li.
Um rosto que não toquei.
Matéria que não sei.
Vida que não vivi.
A caminho de ti
econtrei o mundo.
Perdi os sentidos
e os medos contidos.
Regressei ao início.
E no ponto de partida,
a sangrar a ferida aberta
de tanto caminhar para ti
perdi os sentidos
e acabei por me encontrar
nos perdidos e achados de mim.
Martha Mendes
(3 Abril de 2009)
encontrei uma cor nova.
Um livro que não li.
Um rosto que não toquei.
Matéria que não sei.
Vida que não vivi.
A caminho de ti
econtrei o mundo.
Perdi os sentidos
e os medos contidos.
Regressei ao início.
E no ponto de partida,
a sangrar a ferida aberta
de tanto caminhar para ti
perdi os sentidos
e acabei por me encontrar
nos perdidos e achados de mim.
Martha Mendes
(3 Abril de 2009)
segunda-feira, 30 de março de 2009
Só tenho hoje
Só tenho hoje
De entre o tempo que me foge
Para me arrepender.
Só tenho hoje
De entre o tempo que me foge
Para voltar atrás.
Só tenho hoje
De entre o tempo que me foge
Para começar a viver.
Só tenho hoje para sentir.
Só tenho hoje para parar.
De entre o tempo que me foge
Só tenho hoje
Para recomeçar.
Martha Mendes
(30 Março 2009)
De entre o tempo que me foge
Para me arrepender.
Só tenho hoje
De entre o tempo que me foge
Para voltar atrás.
Só tenho hoje
De entre o tempo que me foge
Para começar a viver.
Só tenho hoje para sentir.
Só tenho hoje para parar.
De entre o tempo que me foge
Só tenho hoje
Para recomeçar.
Martha Mendes
(30 Março 2009)
quarta-feira, 25 de março de 2009
Um tempo
No toque do vento
Na humidade da terra
No ponto mais alto da montanha,
ou no último recanto da caverna,
passa um tempo a que sou estranha.
No toque do vento,
na humidade da terra,
de mim me ausento.
Lua cheia, meia-lua,
E passa um tempo que acentua a vida.
No barulho da rua
No entulho das memórias que enchem a alma,
perco a calma,
sobe a maré.
E passa um tempo que me rouba a fé.
Martha Mendes
(25 Março 2009)
Na humidade da terra
No ponto mais alto da montanha,
ou no último recanto da caverna,
passa um tempo a que sou estranha.
No toque do vento,
na humidade da terra,
de mim me ausento.
Lua cheia, meia-lua,
E passa um tempo que acentua a vida.
No barulho da rua
No entulho das memórias que enchem a alma,
perco a calma,
sobe a maré.
E passa um tempo que me rouba a fé.
Martha Mendes
(25 Março 2009)
quinta-feira, 19 de março de 2009
A corrida
Conto as contas à vida
Pico o ponto
Ato as pontas
e continuo a corrida.
Amarro as cordas
mas as pontas soltas
dão voltas à linha.
Acordas a suar a febre.
Contas as pontas soltas da vida.
Sou gato por lebre,
batalha vencida,
e continuo a corrida.
Martha Mendes
(19 Março 2009)
Pico o ponto
Ato as pontas
e continuo a corrida.
Amarro as cordas
mas as pontas soltas
dão voltas à linha.
Acordas a suar a febre.
Contas as pontas soltas da vida.
Sou gato por lebre,
batalha vencida,
e continuo a corrida.
Martha Mendes
(19 Março 2009)
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Os morcegos
A noite está suja e os morcegos andam na rua.
São dos que bebem o sangue aos distraídos.
Negros como a noite nua em que se movem,
vêm corroídos de mal.
A noite está suja mas os morcegos gostam assim:
A luz cega o predador que babuja
E enferruja a coragem postiça dos que se escondem.
Raiva mestiça, de inveja e podre
O sangue que alimenta o odre que bebe da vida alheia.
Veneno puro na noite escura,
que ateia a loucura pequena, mesquinha,
dos morcegos.
Secos e cegos,
bebem a paz aos distraídos.
Infelizes, doridos,
bebem o sangue dos inimigos.
Martha Mendes
(20 Fevereiro 2009)
Aos morcegos, que sabem quem são.
São dos que bebem o sangue aos distraídos.
Negros como a noite nua em que se movem,
vêm corroídos de mal.
A noite está suja mas os morcegos gostam assim:
A luz cega o predador que babuja
E enferruja a coragem postiça dos que se escondem.
Raiva mestiça, de inveja e podre
O sangue que alimenta o odre que bebe da vida alheia.
Veneno puro na noite escura,
que ateia a loucura pequena, mesquinha,
dos morcegos.
Secos e cegos,
bebem a paz aos distraídos.
Infelizes, doridos,
bebem o sangue dos inimigos.
Martha Mendes
(20 Fevereiro 2009)
Aos morcegos, que sabem quem são.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Será que ainda fui a tempo?
Era quase meia-noite. “Tens de desejar! Deseja tudo agora. É quase meia-noite!”, diziam. Está bem. Vou desejar. Vou fechar os olhos e desejar com tanta força que talvez este ano se torne realidade. Desejo mais dias de sol. Escrever todos os dias nem que seja só meia-dúzia de linhas. Abraços e ramos de flores sem ter de os pedir. Passear sozinha com a mana como quando éramos adolescentes e tínhamos mais tempo uma para a outra. Que o pai se ria mais vezes porque, apesar de ele não saber, tem o riso mais bonito do mundo e ouvi-lo rir é ganhar o euromilhões duas vezes na mesma semana. Quero que a mãe viva para sempre e que o tio ressuscite. Quero um quadro da Inês pintado de propósito para mim, com uma dedicatória nas costas. Quero que o coração dela se encha de uma vez para sempre. Estar mais vezes com o Casimiro. E que ele traga a guitarra e toque, como quando tínhamos 16 anos. Quero ouvi-la dizer “estou grávida outra vez, o Zé vai ter um mano”, enquanto põe a mão na barriga e sorri. Quero mais jardins, praias e crianças na minha vida. Quero que a Renata tenha sucesso. Que o meu esforço não seja em vão. Ter tempo para saborear um café descansada numa esplanada. Em dias de sol e em dias de muito frio. Quero que ele fale comigo. Não quero magoar ninguém nunca mais. Estalou a rolha do champanhe. “Já é meia-noite! Bom ano!”. E quero a verdade. A minha verdade. Isso é o que mais quero, no fundo mais fundo de mim. Será que ainda fui a tempo?
Martha Mendes
(Macau, 12 Janeiro 2009)
Martha Mendes
(Macau, 12 Janeiro 2009)
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Medo
É cinzento e veste preto
este cimento que paralisa.
É um frio na espinha,
precipício que se adivinha no fim de cada rua.
É um caminho escuro,
reflexo que te mostra nua num quarto fechado.
É estar isolado, cheio de gente.
Máscara sem furo para respirar
nas brumas do nevoeiro demente.
Silêncio que zumbe calado
no discurso mudo, inconsciente.
Martha Mendes
(Macau, 5 Janeiro 2008)
este cimento que paralisa.
É um frio na espinha,
precipício que se adivinha no fim de cada rua.
É um caminho escuro,
reflexo que te mostra nua num quarto fechado.
É estar isolado, cheio de gente.
Máscara sem furo para respirar
nas brumas do nevoeiro demente.
Silêncio que zumbe calado
no discurso mudo, inconsciente.
Martha Mendes
(Macau, 5 Janeiro 2008)
Rosas pretas
Não há rosas pretas
nem borboletas debaixo da terra.
Não há chave que abra a porta que emperra
nem líquido que tire a ferrugem das letras.
Não há rosas pretas
nem preto encarnado
no jogo viciado
de procurar rosas pretas
num campo relvado.
Martha Mendes
(Macau, 5 Janeiro 2009)
nem borboletas debaixo da terra.
Não há chave que abra a porta que emperra
nem líquido que tire a ferrugem das letras.
Não há rosas pretas
nem preto encarnado
no jogo viciado
de procurar rosas pretas
num campo relvado.
Martha Mendes
(Macau, 5 Janeiro 2009)
domingo, 4 de janeiro de 2009
Sem medo
Vou falar sem medo que as palavras fujam.
Ouvir sem medo de não entender.
Tocar sem medo de ser rejeitada.
Ser tocada sem medo de me perder.
Olhar para o céu
mesmo sem lhe ver a entrada.
Levantar o véu
sem saber o que vou ver.
Coser os laços.
Perder o medo.
Colar os pedaços.
Ainda é cedo para parar de correr.
Deixar sangrar.
Abrir os olhos.
Acreditar na cura.
Vou olhar para o céu
mesmo sem lhe ver o fim.
Ainda é cedo para me deixar morrer.
Martha Mendes
(Macau, 4 Janeiro 2009)
Ouvir sem medo de não entender.
Tocar sem medo de ser rejeitada.
Ser tocada sem medo de me perder.
Olhar para o céu
mesmo sem lhe ver a entrada.
Levantar o véu
sem saber o que vou ver.
Coser os laços.
Perder o medo.
Colar os pedaços.
Ainda é cedo para parar de correr.
Deixar sangrar.
Abrir os olhos.
Acreditar na cura.
Vou olhar para o céu
mesmo sem lhe ver o fim.
Ainda é cedo para me deixar morrer.
Martha Mendes
(Macau, 4 Janeiro 2009)
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