No limbo do equilíbrio
Ele tenta, ébrio, andar direito.
De dores feitas e rarefeitas
Numa vida amarela,
onde o homem se tenta arrumar.
Rumo a lado algum,
caminha sobre o fio da navalha.
Na aguarela do trajecto
a mortalha espera branca,
sob o caminhar cambaleante.
O homem balança o corpo para manter o equilíbrio.
O fio balança numa ameaça.
Devassa de um momento de risco,
risco num papel o momento.
Cheira a medo e a fim.
E o fim tem um sabor triste
no limbo do equilíbrio.
O público assiste indiferente
à última tentativa.
Altiva réstia de vida.
Sob o fio o homem joga o fim.
O último lençol branco convida.
O fio cede tentado pelo balanço.
Em lanço livre,
o eterno mal-amado cai em desequilíbrio.
O derradeiro grito cai com ele
e sabe a liberdade.
Na aguarela do fim o branco fica vermelho.
Martha Mendes
(30 Agosto de 2008)
sábado, 30 de agosto de 2008
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Mais perto
Chega mais perto.
Abraça-me. Agarra-me. Adora-me.
Tu que és água, deserto.
Aberto, fechado.
Calado, falador.
Meu amor, meu carrasco.
Chega-te a mim.
Chega mais perto.
Sem trégua nesta entrega ambígua.
Falemos a mesma língua.
Gota a gota entregas palavras preciosas
Que me matam à mingua
Porque me alimentam de ti.
Tu que nunca chegas.
Chega mais perto.
Chega a mim.
Assenti há muito o abate.
Rebate em que me roubas.
Muito perto. Próximo. Colado à pele.
Quase eu também.
Chega mais perto.
Meu bem, meu mal.
Meu sal, pimenta.
Cor cinzenta, cor vermelha.
Abelha, borboleta.
Avião que risca o céu.
Caneta que usas para me desenhar.
Chega-te a mim.
Chega-me mais perto.
Martha Mendes
(29 Agosto 2008)
À minha mãe Maria Regina que nasceu no dia de hoje, há 51 anos, para ser o meu eterno porto de abrigo. A sua infinita capacidade de amar é uma lição de vida todos os dias.
Abraça-me. Agarra-me. Adora-me.
Tu que és água, deserto.
Aberto, fechado.
Calado, falador.
Meu amor, meu carrasco.
Chega-te a mim.
Chega mais perto.
Sem trégua nesta entrega ambígua.
Falemos a mesma língua.
Gota a gota entregas palavras preciosas
Que me matam à mingua
Porque me alimentam de ti.
Tu que nunca chegas.
Chega mais perto.
Chega a mim.
Assenti há muito o abate.
Rebate em que me roubas.
Muito perto. Próximo. Colado à pele.
Quase eu também.
Chega mais perto.
Meu bem, meu mal.
Meu sal, pimenta.
Cor cinzenta, cor vermelha.
Abelha, borboleta.
Avião que risca o céu.
Caneta que usas para me desenhar.
Chega-te a mim.
Chega-me mais perto.
Martha Mendes
(29 Agosto 2008)
À minha mãe Maria Regina que nasceu no dia de hoje, há 51 anos, para ser o meu eterno porto de abrigo. A sua infinita capacidade de amar é uma lição de vida todos os dias.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Palavras
Beijas as palavras
Para me mergulhares.
Fazes das palavras
instrumentos com que me lavras fundo.
Na tua boca, as palavras.
Afilamentos das estradas difíceis.
Braços que usas para me abraçar.
Laços com que enfeitas
as conversas que me ofereces.
Eu, guerreira, tentando resistir às tuas preces
de palavras ditas e desditas.
Eu, vencida ao que sussurras.
Palavras afeitas a nós,
afoitas aos outros.
Espaços vazios que preenches com som de ti.
Coches antigos por onde me levas a viajar.
Trevas que transformas em luz,
como nas primeiras horas do Homem.
As tuas palavras,
sons que me amam e consomem.
Abraços de voz que me afogam em ti.
Martha Mendes
(12 Agosto 2008)
Para me mergulhares.
Fazes das palavras
instrumentos com que me lavras fundo.
Na tua boca, as palavras.
Afilamentos das estradas difíceis.
Braços que usas para me abraçar.
Laços com que enfeitas
as conversas que me ofereces.
Eu, guerreira, tentando resistir às tuas preces
de palavras ditas e desditas.
Eu, vencida ao que sussurras.
Palavras afeitas a nós,
afoitas aos outros.
Espaços vazios que preenches com som de ti.
Coches antigos por onde me levas a viajar.
Trevas que transformas em luz,
como nas primeiras horas do Homem.
As tuas palavras,
sons que me amam e consomem.
Abraços de voz que me afogam em ti.
Martha Mendes
(12 Agosto 2008)
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Cicatriz
Fenda aberta para sempre
Na seda da pele.
Vereda estreita, azeda,
no mapa do meu corpo.
Marca de uma contenda
Das mil que a vida me deu.
Carimbo sem emenda
Da luta do ontem.
Cacimbo de águas pantanosas.
Cicatriz.
Essa linha que demarca
Dois lados da pele.
Dois lados da alma.
Um momento.
Fenda que o tempo acalma
e a memória acende.
Rio correndo por entre dois bocados de mim.
Cicatriz.
Bissectriz que parte do ângulo das lembranças.
Actriz a actuar sozinha no palco do meu corpo.
Embaixatriz do que já vivi.
Essa linha que demarca dois lados da carne.
Ferida feia que repele.
Encarne da dor que senti.
Para sempre marcada a ferros,
tatuagem alheia em mim.
Martha Mendes
(11 Agosto 2008)
Na seda da pele.
Vereda estreita, azeda,
no mapa do meu corpo.
Marca de uma contenda
Das mil que a vida me deu.
Carimbo sem emenda
Da luta do ontem.
Cacimbo de águas pantanosas.
Cicatriz.
Essa linha que demarca
Dois lados da pele.
Dois lados da alma.
Um momento.
Fenda que o tempo acalma
e a memória acende.
Rio correndo por entre dois bocados de mim.
Cicatriz.
Bissectriz que parte do ângulo das lembranças.
Actriz a actuar sozinha no palco do meu corpo.
Embaixatriz do que já vivi.
Essa linha que demarca dois lados da carne.
Ferida feia que repele.
Encarne da dor que senti.
Para sempre marcada a ferros,
tatuagem alheia em mim.
Martha Mendes
(11 Agosto 2008)
Os outros
Pensava que podia viver sozinha.
Mas depois chegaram os outros.
Pensava que podia não chorar.
Mas depois faltaram-me os outros.
Pensava que os outros não faziam falta.
Mas depois senti saudades.
Pensava que os outros não eram importantes.
Até ao dia em que os outros chegaram.
Martha Mendes
(9 de Julho 2008)
Mas depois chegaram os outros.
Pensava que podia não chorar.
Mas depois faltaram-me os outros.
Pensava que os outros não faziam falta.
Mas depois senti saudades.
Pensava que os outros não eram importantes.
Até ao dia em que os outros chegaram.
Martha Mendes
(9 de Julho 2008)
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Estilhaços ao fim do novo dia
Rio alto e em bom som.
Rio das hipocrisias,
das almas vazias.
Rio e sei que não é de bom tom.
A minha arma são as gargalhadas.
Granadas contra o poder.
Tiros contra as vidas achincalhadas.
Rio alto e em bom som.
Uso o humor como defesa.
Ataque ao tumor do mundo.
O som do riso
soa-me a estilhaços.
Abraços avessos à paz.
Aguarrás que tudo corrói.
O disparo de balas perdidas.
Baços olhos de carrasco,
capataz do mal,
olham vidas abatidas.
Os cadáveres caem por terra.
O mundo encerra um novo dia.
Martha Mendes
(6 Agosto 2008)
Rio das hipocrisias,
das almas vazias.
Rio e sei que não é de bom tom.
A minha arma são as gargalhadas.
Granadas contra o poder.
Tiros contra as vidas achincalhadas.
Rio alto e em bom som.
Uso o humor como defesa.
Ataque ao tumor do mundo.
O som do riso
soa-me a estilhaços.
Abraços avessos à paz.
Aguarrás que tudo corrói.
O disparo de balas perdidas.
Baços olhos de carrasco,
capataz do mal,
olham vidas abatidas.
Os cadáveres caem por terra.
O mundo encerra um novo dia.
Martha Mendes
(6 Agosto 2008)
terça-feira, 5 de agosto de 2008
A Vida despiu-se à minha frente
Ontem a vida bateu-me à porta.
Vinha cheia e vazia.
A rir e a chorar.
Vinha quente e fria.
A vida bateu à porta e mostrou-me o cardápio.
Tinha sal e pimenta.
O fim e o princípio.
Doce e azedo.
Tudo o que a condimenta.
Mostrou-me as linhas da mão.
Contou-me todas as estórias
de que o tempo se alimenta.
A vida bateu-me à porta.
Vinha feliz.
Vinha triste.
Trazia uma força que nada aborta.
Ontem vi a vida.
Despiu-se à minha frente.
Mostrou-me as queimaduras do tempo,
as cicatrizes das dores,
sofridas a fogo lento.
Os rasgos de felicidade.
As pegadas da paixão,
impressas na palma da mão.
A vida contou-me da sua agilidade.
Contou-me a estória da vida dela.
De quantas vezes seduz a adversidade.
Da afinidade que mantém com a morte.
Ontem a vida bateu-me à porta,
calhou-me em sorte,
e mostrou-me que sou parte dela.
Desta favela de caminhos entrecruzados
De gritos abafados, sonhos abalados.
Dos abraços apertados,
que nos enchem por dentro.
Dos tombos da vida
de que saímos levantados.
Martha Mendes
(5 de Agosto 2008)
Vinha cheia e vazia.
A rir e a chorar.
Vinha quente e fria.
A vida bateu à porta e mostrou-me o cardápio.
Tinha sal e pimenta.
O fim e o princípio.
Doce e azedo.
Tudo o que a condimenta.
Mostrou-me as linhas da mão.
Contou-me todas as estórias
de que o tempo se alimenta.
A vida bateu-me à porta.
Vinha feliz.
Vinha triste.
Trazia uma força que nada aborta.
Ontem vi a vida.
Despiu-se à minha frente.
Mostrou-me as queimaduras do tempo,
as cicatrizes das dores,
sofridas a fogo lento.
Os rasgos de felicidade.
As pegadas da paixão,
impressas na palma da mão.
A vida contou-me da sua agilidade.
Contou-me a estória da vida dela.
De quantas vezes seduz a adversidade.
Da afinidade que mantém com a morte.
Ontem a vida bateu-me à porta,
calhou-me em sorte,
e mostrou-me que sou parte dela.
Desta favela de caminhos entrecruzados
De gritos abafados, sonhos abalados.
Dos abraços apertados,
que nos enchem por dentro.
Dos tombos da vida
de que saímos levantados.
Martha Mendes
(5 de Agosto 2008)
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