domingo, 26 de abril de 2009

Segundo

Um segundo chega
segundo a pressa do tempo.
Chega a primeira queda…
…E tentas o segundo salto.
Sem segunda oportunidade.
Um momento que nunca mais se repete.
Na vida como na hora da verdade,
Um segundo e nasces outra vez.

De vez ou para nunca mais voltar:
Um segundo basta para acabar.

De vez ou para nunca mais voltar:
Um segundo chega para recomeçar.

Martha Mendes
(26 Abril de 2009)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Do lado de cá

Dentro de mim cabe tudo.
O som mudo dos gritos que não lanço.
O descanso e o cansaço.
A tua presença e a tua falta.
Sangue, estômago, intestinos.
Instintos e vertigem em ponte alta.
Retintos minutos de tempo
e um coração onde me sento para pensar.
Os livros que não li e quero ler.
Falar, contar, calar.
O desejo de me perder em ti,
viagem que continuo sozinha.
Na minha, na tua, nossa rua.
Dentro de mim cabe a nossa canção,
que vem ter comigo todos os dias.
Sensação de que o mundo é pequeno.
Um veneno que não mata:
Desacata, desencanta.
Cabe o astronauta e o velho do Restelo.
Castelo no ar, moinho de vento.
O lado novo, o lado velho.
O envelhecido que reinvento.
Sou Elias, sou Jezabel,
cordão umbilical, umbigo que entra pela pele.
Sou o sonho do que poderia ter sido.
E debaixo do tecido de mim
cabe o que não foi e nunca será
mas ficou para sempre.
Para sempre do lado de cá.

Martha Mendes
(15 Abril de 2009)

A partir do branco

Rasgo o papel e parto outra vez do branco.
Num rasgo de coragem,
arranco palavra a palavra de dentro de mim.
Anulo tudo o que já fiz.
Invento.
Re-invento.
Aumento a distorção da realidade.
Procuro a verdade por dentro,
e reinvento-a no papel.
Cruel, este misto de mel e fel,
onde a criação se encontra.
As palavras.
Essa montra onde me exponho sem máscara.

Diáspora.

Catarse da alma, do ser, do eu.
O meu.
O teu.
O nosso.
Puxado do poço sem fundo de mim.
Rasgo o papel e parto outra vez do branco.
Arranco-me de mim,
para expor a pessoa que sou.
A nu.
A cru.
Vou escrevendo.
Sobre um branco franco,
espelho de mim que não deixa mentir.


Martha Mendes
(15 Abril 2009)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sob o sol

O tempo passa
e ouço a dança da água
ao som da ameaça
de que o mundo não espera por mim.

Debaixo do sol
o tempo teima em passar
No rol das horas que se desenrolam.
A pele estala, queima,
e, ao fundo, o mar que me embala
atira-se contra as rochas
numa luta antiga.
Enquanto o tempo passa
para que a vida prossiga.

Martha Mendes
(Funchal, 10 Abril 2009)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A caminho de ti

A caminho de ti
encontrei uma cor nova.
Um livro que não li.
Um rosto que não toquei.
Matéria que não sei.
Vida que não vivi.
A caminho de ti
econtrei o mundo.
Perdi os sentidos
e os medos contidos.
Regressei ao início.
E no ponto de partida,
a sangrar a ferida aberta
de tanto caminhar para ti
perdi os sentidos
e acabei por me encontrar
nos perdidos e achados de mim.

Martha Mendes
(3 Abril de 2009)