terça-feira, 30 de setembro de 2008

Aguaceiro

O comboio arrancou de vez
em carruagens de saudade e vazio.
Caravanas de distância
levam-te para longe.
A ânsia cresce,
ao som do ferro a raspar os carris.
Choras e ris.
E sorris de mágoa.
A água dos olhos molha o caminho
percorrido légua a légua,
sob o aguaceiro já molhado.
A régua da estória
traçou-nos caminhos cruzados.
Atalhos para um pouco mais de vida.
O último apeadeiro coincide com a chegada.
Recordo cabelos grisalhos de tanto retorno.
Parada negra onde desfila o comboio da partida.
Nós,
Agasalhos um do outro nos dias frios do fim.
Percurso certeiro de uma vida ao acaso.
Descoberta de sol no fim do aguaceiro.

Martha Mendes
(30 Setembro 2008)


sábado, 27 de setembro de 2008

Água em mim

Sangue.
Vermelho e quente, o sangue.
Sangue novo, sangue velho.
com a seiva encarnada comprovo
a verdade abandonada do espelho da carne.
Água.
Fria e verdadeira, a água.
Arruaceira que molha os corpos,
a chuva caída do céu.
Tu e eu.
Sangue e água.
Vida que desagua em mim.
Boomerang que volta sempre.
O sangue vermelho verdadeiro
Do frio e do quente
Água ausente
na seca solitária de abalar.
Sangue teu nas veias minhas
que incendeias quando és água em mim
de tanto me amar.

Martha Mendes
(27 de Agosto 2008)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Partilha

Parto-me ao meio
Separo o melhor de mim
Reparo de ter nascido incompleta.
Pincel sem paleta,
eu sem ti.
Violeta sem raiz na terra,
dou-me.
Partilha que me desterra para fora de mim.
Tu, ilha à deriva no meu corpo,
sem recanto onde atracar.
Mão que me dedilha os segredos
Privilégio de me teres por completo.
Enredos e medos e penedos que não consigo saltar.
Meu amuleto.
Esqueleto de que sou a carne.
Corpo incompleto quando estou fora.
Hora certa para regressar a ti.

Martha Mendes
(22 de Setembro de 2008)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Amor e Raiva

Foi sempre assim, amor e raiva.
Foi sempre assim este conflito.
Amar sem querer e querer sem poder,
Num sentir inquieto e aflito.

Precipício sem fim,
este, onde me perco em ti.
Num salto rasgo o infinito
E do que era eu fica apenas o eco do último grito.

Ferida, arranco tudo o que de teu ficou em mim.
Sangro gota a gota
Até te esvaziar do corpo.
Apago o vestígio da tua pele
Na esperança de deixar de ser tua.
Desfaço o eterno litígio de te amar com cólera.
Rasgada de dor e mágoa
Vejo-me nua sobre a água que reflecte a derradeira verdade:
Foi sempre assim, amor e raiva.

Martha Mendes
(14 de Julho de 2007)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Xeque-mate

De partida para lugar algum
Cheguei onde não quero continuar.
Encurralada no fim da linha.
Acoplada ao fim.
Assassina da vida.
Assassina de mim.
A sangue frio abatida,
sou remetida sem retorno
para o buraco negro do silêncio.
Suborno o som para sentir vida.
Barulho morno da minha voz com cio.
Jogo de xadrez em que sou peão.
Dominós empilhados desmoronam.
É a minha vez.
Pingue-pongue que prolongue a disputa.
Luta marcada pelos limites do ringue.
Avanço uma casa.
Lanço os dados.
De partida para lado algum
chego ao outro lado do tabuleiro.
Taco a taco
Ataco e meto a última bola.
A branca empurra a preta.
É o lance que põe fim à partida.
É o Xeque-mate.
Abate do Rei.
Abate da Vida.

Martha Mendes
(15 Setembro 08)

sábado, 6 de setembro de 2008

O som do que não digo

Vivo calada
Colada à sombra escura.
O silêncio é a minha língua materna
Caserna onde me isolo do mundo.

Vivo calada,
embalada pelos dias que passam longos.
O tempo é a minha balança de medir a vida.
Ácida massa,
medida densa e pesada, a vida.

Vivo calada
Dominada pelo medo de não me encontrar.
O ser é a minha maior ambição.
Desejo desde a primeira entrega.

Vivo calada
Descalça de palavras vãs
Vestida de pensamentos mil
Ardil estéril em que me deixo enlear,
Vivo calada e sem falar
e no silêncio ouço o som do que não digo.

Martha Mendes
(6 Agosto de 2008)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Carolina, A Doce

Carolina:
Que a vida te saiba devolver o sorriso franco que ofereces a todos.
Obrigada por seres uma flor no meu jardim, um capítulo do meu livro preferido, o refrão daquela música. Obrigada por tornares os momentos difíceis menos dolorosos, pelos risos levados até às lágrimas, pelos afectos, pelo colo, pelas cumplicidades, pelo apoio. Obrigada por seres um bocadinho de mim, para sempre.
Por muito que a vida nos apanhe na curva, serás sempre Carolina, A Doce, no livro das minhas lembranças mais queridas.
Faz boa viagem e boa sorte no encontro daquilo que vais procurar.
Levas contigo o pensamento de uma amiga.
Adoro-te e estou por aqui. Para sempre.
Um abraço apertado, daqueles dos nossos, entre risos e lágrimas descontroladas e felizes.
Martha Maria
4 de Setembro de 2008