Ele não fala. Gesticula, gesticula muito, e levanta os braços em gestos enérgicos que dão maior visibilidade às roupas que o cobrem. Velhas e gastas, como Ele. Caladas e tristes, como Ele. Estende a mão como quem se arrasta. E arrasta-se mesmo até à porta do autocarro que descarrega os turistas que, sem saberem, também se arrastam. O tempo passa-lhe pesado. Os turistas ignoram-no. Estão de férias. Mas Ele nunca tira férias. Pára apenas de se arrastar. Entre um autocarro e outro, quando volta para o passeio e se senta na pedra fria, fica a recordar a única viagem que fez na vida – com a mãe, criança, também de autocarro. É por isso que Ele gosta de estar ao pé deles, os monstros das rodas grandes. Todos os dias lhes sente o cheiro que sai do tubo de escape. O cheiro da borracha dos pneus. O cheiro do gasóleo. Esses aromas dessa recordação doce, a única recordação doce que vive dentro dele. Quando os autocarros arrancam, depois de despejarem turistas que se afastam ignorando o homem que se arrasta atrás deles, apontando a garganta muda – que simplesmente deixou de funcionar, como um rádio antigo ao qual há muito ninguém muda as pilhas – Ele regressa ao passeio e fica a ver as rodas gigantes começarem a girar para que o monstro dê início à marcha. Não fala. Nem poderia, mesmo que quisesse. Contenta-o que os pneus imundos de tanta estrada chiem por si, irritando o descanso balofo dos que o ignoram. Não fala e agora também já não gesticula. Regressou, arrastando-se, até ao passeio e fechou os olhos. Tem outra vez nove anos e está a entrar no autocarro com a mãe. Vai partir.
Martha Mendes
(22 Agosto de 2009)
Martha Mendes
(22 Agosto de 2009)