A casa daquela velha tem lá dentro a solidão
e muito tempo que passa devagar,
muitas horas vazias,
e, no sótão, muitas azias de estômago de velha.
Tem uma porta com postigo
a casa que não se abre a ninguém.
Só a morte vai lá dentro.
É um jazigo, mas a velha não sabe.
Ela nunca vai à rua:
é refém daquele espaço.
Cada parede tem um pedaço seu.
Lá dentro, a velha faz parte de tudo
e tudo naquela casa está dentro da velha.
A velha mesa de bilhar, sua vesícula biliar,
Cada taco do chão, um músculo do coração,
Cada corredor, um órgão do sistema reprodutor.
Com os anos, a velha fundiu-se com a casa
e agora, ambas são uma coisa só.
Mas a velha não se sente só:
Tem as janelas, as paredes, as portas,
suas artérias aortas,
e cada um dos grãos de pó
[que não limpa há muitos anos]
e cada uma das teias que enchem os canos
[por onde a água deixou de correr].
Tem plantas que deixaram de viver
mas ela mantém os vasos,
porque lhe trazem memórias
do tempo em que vivia fora da casa,
na asa dos sonhos e da vida.
Um dia a velha vai morrer e ninguém a vai encontrar:
Ficará incorporada nas paredes da casa,
Com o pó, as teias e as plantas mortas.
Nem um farrapo restará do seu corpo:
Será tudo fundido com as molduras tortas
suspensas nessas paredes que são a sua vida.
Ficará perdida,
ou,
então,
por fim,
encontrada,
alada para voar paredes afora.
Martha Mendes
(6 Fevereiro de 2012)