Vi viver
tantas vezes
que não sei quantas vidas são possíveis.
Vi ver
em tantos níveis,
com tantos olhos,
que fiquei cega para tantas vidas.
Vi navegar
tantas vezes
entre escolhos
homens para vigar os mares,
prender as marés,
e as insensatezes.
Vi navegar para ugar as ondas,
e ugar às ondas que as vidas são adúlteras,
ossudas, cortantes,
agudas, inconstantes.
As terras, essas, são redondas.
São de rondas, são de mondas,
como as estações.
Não te escondas: navega.
Não saias nas estações de ligação
para outra vida, para outro chão.
Nas ondas entrançadas de um cabelo, navega.
Vive pelo belo,
pelo duelo
entre ser vida ou existência adormecida.
Navega na veiga dos campos pungentes de gentes e vidas.
Navega, nas idas e vindas da vida
Vive na seiva das ondas,
Navega no fundo, mais fundo, do mar.
Rompe com as redes, marinheiro,
não tenhas medo de afundar.
Vive, navega,
nesse lugar entre as ondas,
onde mesmo debaixo de água,
há espaço para respirar.
Martha Mendes
(25 Janeiro de 2012)